Istambul, Istambul | Burhan Sönmez
Numa prisão subterrânea da cidade de Istambul, um grupo de detidos aguarda a chegada dos inquisidores que os vêm buscar para os interrogatórios. Para vencer a angústia do tempo de espera, a fome, o frio e as dores, vão contando histórias uns aos outros. Histórias de uma vida possível num mundo que, lá em cima, habita o chão por cima das suas cabeças. É a força das palavras que constrói essas histórias e esse mundo, onde o desenrolar dos acontecimentos se prende a uma normalidade, talvez, até real.Nessas histórias descobrimos que aquilo que as pessoas mais temem na vida são elas próprias. E isso é-nos confidenciado por homens que sofrem e aguardam por mais sofrimento, pois o corropio dos guardas e dos espancamentos não conhece descanso.
Nessa fuga que as palavras permitem, nas histórias que vão contando uns aos outros, muitos invocam os seus dramas, os seus sonhos desfeitos, recordando-nos que o Inferno será sempre feito do que decidirmos lá colocar e de quem escolhemos para levar connosco. Que a forma de ser humano mais pura que existe é a do homem que sofre. Cada homem está em permanente confronto com o seus limites e uma prisão pode levar isso ao extremo da dor, da coerção e das barreiras de que a mente não se consegue libertar.
Um dos prisioneiros é o velho Küheylan, fez todo o trajecto inconsciente para acordar já na sua cela. Para quem nunca viu a grande cidade, acordar numa das suas celas subterrâneas é o vislumbre possível da grande metrópole: a cela transforma-se na Istambul que sempre desejou conhecer. Todas as cidades e todos os lugares têm as suas profundezas escuras, os homens também.
O vaivém dos inquisidores, o som do portão de ferro, a tortura que se segue, marcam o ritmo da violência, e o leitor também precisa de se refugiar nessas histórias. Lá em cima encontra-se uma cidade em revolução, tão próxima e tão inacessível, as histórias que vão contando, são orações não escutadas, inconsequentes, como quase tudo o que é profundamente humano e belo.
Afinal o ser humano contenta-se com tão pouco, basta-lhe apenas um novo motivo de felicidade.
…e dissera à rapariga que o escutava sem palavras: «Confio no teu silêncio.» A rapariga respondera com a expressão do rosto e fizera um sinal de assentimento com a cabeça. Aquelas duas pessoas que tinham acabado de se conhecer viajavam de um buraco escuro para outro. Como o tempo flui de maneira diferente nas margens da dor, haviam confiado um no outro.