Alguns meses atrás, na Áustria, a polícia arrombou um porão onde o dono da casa manteve uma filha seqüestrada durante anos, e chegou a ter filhos com ela. Custa crer que o tal Josef Fritzl conseguisse construir todo aquele “bunker” subterrâneo, com portas de ferro, fechaduras eletrônicas, sistema de ventilação, de aquecimento, e tudo o mais, sem despertar as suspeitas de quem quer que fosse. Mas bastou ser descoberto o caso dele, e em outros países outras pessoas começaram a achar estranho o movimento que estava ocorrendo na casa de um vizinho, o que levou à descoberta de outros casos de cárcere privado.
Tudo isto me lembra uma música de Tom Waits, “What’s he building?”, uma daquelas suas canções recitativas, ao som de sonoplastia e de acompanhamentos dissonantes. A música está no CD Mule Variations (1999). São os resmungos preocupados de um sujeito diante do comportamento estranho de um vizinho. “O que diabo ele está construindo lá?... Ele vive assinando revistas, mas nunca cumprimenta ninguém quando passa... Está escondendo alguma coisa de nós... Vive fechado em si mesmo... Acho que sei por quê. Ele mandou tirar o balanço que havia na árvore. Não tem crianças, não tem cachorro, não tem amigos, a grama está sem cuidados... E aqueles pacotes todos que ele vive mandando pelo correio? O que diabo ele está construindo ali?”
O monólogo de Waits sempre me pareceu a reação de vizinhos bitolados diante de alguém que tem hábitos pouco convencionais (eu, por exemplo). Meus vizinhos talvez se perguntem: “O que ele escreve tanto?... Por que escuta forró às 3 da manhã?... E o microondas, que passa a noite apitando?...” Ninguém sabe o quanto custa ser a única pessoa de hábitos diferentes numa vizinhança onde todo mundo não apenas é igual, mas exerce uma vigilância permanente para que todos os demais também o sejam.
E Waits continua a matutar: “Que som é aquele por baixo da porta? Ele está pregando pregos no chão de madeira. Juro que ouvi alguém gemer... E vejo a luz azul da TV acesa. Ouvi dizer que ele tem uma ex-esposa no Tennessee, e teve um emprego de consultoria na Indonésia... Mas o que diabo ele está construindo lá?...”
Hoje, depois do episódio de Josef Fritzl, eu acesso essa música com outros ouvidos. De repente não é mais o murmúrio contrafeito e ressentido de um vizinho reacionário, preconceituoso, que tem medo de tudo que é diferente dos seus habitozinhos. De repente pode ser a preocupação legítima de um pai-de-família que tem seus parâmetros e sente quando existe algo estranho no ar. Fritzl manteve a filha seqüestrada e violentada durante anos porque ninguém se interessou por ele, nem pelo entra-e-sai de carpinteiros e encanadores; estes mesmos nunca se perguntaram para que ia servir o “bunker” que construíam. Ninguém quis saber... Todo mundo olhou para o outro lado... Taí, tudo que faltou nesse episódio da Áustria foi uma vizinha fofoqueira.
