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Revisitação literária do 25 de Abril ou viagem à mitologia dos factos e não à história dos factos (palavras da escritora), este é um livro muito interessante.

Quando se passam quase 50 anos sobre o 25 de Abril e assistimos a tristes figuras como as que tiveram lugar na Assembleia da República este ano, percebemos que temos que nos esforçar para "cumprir o sonho, cumprir Abril". A literatura é uma forma, talvez a mais excelente forma, de nos fazer pensar.  De, com tempo e espaço, contar a História, a sua mitologia e o seu coração. A literatura aproxima-nos dos factos, faz-nos reflectir, pensar, pôr em causa, questionar, relembrar.

A Ana Maria Machado, uma filha de Abril, repórter em Washington, é-lhe pedido que regresse a Portugal e conte a história da Revolução dos Cravos. Partindo de uma fotografia que reúne os principais protagonistas de Abril (e da sua própria história), Ana Maria e dois colegas lançam-se na busca da estória dentro da História.

Este é um livro extremamente bem escrito (como todos os da escritora) e que nos força a uma leitura lenta. Não podemos pegar nos Memoráveis e esperar um documentário sobre o 25 de Abril, não é para isso que a literatura serve. Lídia Jorge procura o olhar de uma geração que nasceu depois do 25 de Abril, que sem viver Abril, viveu todas as suas consequências. A dicotomia sonho/desilusão está presente em cada página, em cada relato dos protagonistas de Abril, uns mais reconhecíveis que outros (todos são tratados em cada página do livro pela alcunha que lhes foi dada por Rosie Honoré) ou na forma como Ana Maria, Miguel Ângelo ou Margarida vivem esta reportagem.

Um livro importante a que, sem dúvida, ainda voltarei.