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O trajeto empreendido pelo autor evoca a ambiguidade do “novo mundo”, entre terra exótica, desconhecida, de uma carga sentimental única
Bruno Pernambuco
A viagem é empreendida sobre terras distantes; é a travessia de um desterro, entre terras que se supõem incomunicáveis. Ao mesmo tempo, a concretude do oceano- de seus bens preciosos e suas batalhas contemporâneas-, dos personagens sobre os quais o olhar atento do poeta pousa, da exploração das mercadorias e dos bens, é narrada de forma direta, clara, com versos limpos e certeiros. Viagem à América do Sul, coleção de poemas do autor chinês Ai Qing, traduzida pela Editora Unesp, é um relato poético preciso e elaborado de quem traz em sua viagem, além do deslumbramento pessoal, a intenção de um intercâmbio literário e político.
O trajeto empreendido pelo autor evoca a ambiguidade do “novo mundo”, entre terra exótica, desconhecida, de uma carga sentimental única, e vítima da exploração e do subjugo colonial. Mais do que transitar entre o lírico e o épico, a poesia de relatos de Ai Qing une os dois polos separados pela lógica de composição ocidental numa precisão do símbolo e da linguagem poética. Esse é um dos aspectos, dentro da obra, mais prejudicados pela impossibilidade de transcrever a unidade visual e sintática da escrita original em chinês. Em excelente resenha na última edição do jornal Rascunho, Edson Cruz evoca o pensamento de Vilém Flusser para a falar a respeito dessa intraduzibilidade, que em algum nível atravessa toda a obra. Certos trechos de Viagem à América do Sul aparecem como uma sobreposição de descrições sem uma unidade do sentido (no seminal Atlântico lê-se: “Cena voltada para a pré-história,/Solitária deserta despovoada”) ou como uma junção de imagens que evocam uma construção intelectual, sem a unidade sensorial trazida por um ideograma que encerra dois conceitos. (numa anotação pessoal do poeta, o litoral alagoano, visto em voo, é descrito da seguinte forma: “O mar é verde-rosa./ A terra é cinza-azul”).
Isto não é, de forma alguma, de uma crítica à tradução de Fan Xing e Francisco Foot Hardman Em sua pesquisa e edição, os tradutores conseguem, além de apresentar a poesia de Ai Qing de forma íntegra e com uma linguagem acessível, reunir fragmentos históricos valiosíssimos, situando num contexto histórico e cultural muito preciso a viagem seminal daquele que foi o maior poeta chinês contemporâneo- e, através disso, permitem uma apresentação de sua vida e de sua obra que fala de maneira especialmente direta ao público a quem essa edição brasileira é destinada.
Reservado à Europa o leitor de Viagem à América do Sul descobre um olhar do poeta ora tenro, ora irônico- como na descrição de Viena, “a bela jovem terrivelmente acometida pela gota”, ou na patetice forçada do secretário do consulado chileno, irremediavelmente perdido dentro da atividade de seus superiores. A crítica voraz é lançada aos centros do imperialismo, ao mesmo tempo em que a compaixão com aqueles seus membros mais frágeis- como se vê no poema Mãe Jovem– surge carregada dessa dualidade de sensações que envolve o conhecimento das consequências do Capitalismo global.
À África e à América do Sul cabe um outro sentimento dentro do poeta. Ai Qing fala aos cidadãos africanos e aos negros brasileiros, forçados a uma situação miserável em que cor e classe inexoravelmente se confundem, com uma camaradagem de quem deseja conhecê-los. Em elaboração poética, Ai Qing usa da ironia para representar essa distância entre si próprio e aqueles a quem observa. Na mesma frase em que evoca seu conhecimento e suas teses a respeito dos mecanismos da exploração capitalista multinacional, o poeta evidencia, com um tom que não é exatamente triste, o seu desconhecimento dos seus semelhantes, de quem está separado pela etnia- em Minha África o autor têm de assumir essa distância, têm de assumir que captura, para si, uma certa África nas suas impressões, com desejo de que ela possa eventualmente se encontrar com uma realidade emancipada. Nos momentos em que essa ambiguidade melhor aparece o poeta simplemente se deixa surpreender pela realidade- como acontece no brasileiro Onde os Negros Moram.
O mar, ilustrado na capa dessa edição, evoca um sentido de transitoriedade de todos aqueles relatos contidos na obra- o que, considerando a vida de seu autor, perseguido pelo Estado chinês pouco tempo depois de sua viagem a terras latinoamericanas, não poderia ser diferente. Coletânea de poemas que passam de uma forma aparentemente tranquila, mas cheios de detalhes, de percepções sutis, e de um olhar vivo, esse exemplar da poesia de Ai Qing é uma excelente introdução, um valioso registro histórico e, por seus próprios méritos, um ótimo e emocionante registro poético.
Autor: Ai Qing
Ed. Unesp
R$ 52,00
(Imagem de capa: Foto do poeta Ai Qing, imagem do acervo da Fundación Pablo Neruda)