O Fogo Será A Tua Casa | Nuno Camarneiro
O escritor, enquanto personagem, visita uma zona de conflito na companhia de um jornalista turco. Ao ser capturado por jihadistas acaba por partilhar a sua sorte com um grupo bastante eclético. A juntar às diferenças culturais, temos um ateu, uma freira ortodoxa, um muçulmano cauteloso e outro convicto, um francês louco e niilista, fechando com um soldado americano cristão e ingénuo. A condição de prisioneiros coloca-os no mesmo nível de fragilidade, mas não de igualdade. A natureza de cada um sobrepõe-se à condição de cativos e, provavelmente, até ao próprio destino.
Que histórias podem contar uns aos outros, se como é sabido, só nos sonhos somos incapazes de mentir.
O francês argumenta que, não sendo a vida humana um bem escasso, não merece ser resgatada. Da boca de um louco sai essa verdade insofismável: a morte pesa menos do que a vida.
Nuno Camarneiro não é escritor de grandes extensões, não se detém a descrever paisagens, fisionomias ou ambientes. Estamos perante uma escrita seca nos pormenores, mas luminosa nas ideias e no confronto, no peso com que cada palavra vence diferenças culturais e clivagens religiosas. Afinal, o Islão não tem imagens, a palavra é a sua força. A escrita, na linguagem mais simples, explora o condicional, mas só na forma mais visceral conseguimos exprimir o que nos vai na alma. Se procurasse resumir este livro numa frase, recorria à seguinte passagem: “Naquele fruto, que pode ter sido uma maçã, um figo ou um cacho de uvas, moravam açucares, perfumes e uma ideia”.
Os cativos iludem o tempo com jogos e histórias, como se as memórias contadas em forma de conto soem menos a confidências. A história da família que vivia em profundo silêncio, é uma brilhante revisitação da alegoria da caverna, apesar do seu desfecho a levar noutra direção. E a história das três irmãs e do rei, encerra em si reminiscências que remetem para as mil e uma noite, com o mistério destas duas histórias serem contadas por uma freira. O profano e o sagrado revisitam-se. Os guardas acabam também por contar as suas histórias, num processo de contaminação mútua; neste caso, são os algozes que se deixam cativar por aqueles cuja vida lhes pertence tirar. Contudo, não existe aqui um discurso de desculpabilização ou o receio do politicamente incorreto.
As mentiras que trocam entre si sobre o avanço das negociações que conduzem ao resgate, são mais forte do que a esperança e estabelecem um ambiente de tensão entre os cativos, adensando a trama. Mesmo na desgraça, a nacionalidade e o nível social cobram o seu quinhão na sorte de cada um. Percebe-se que circunstância alguma, por mais degradante que seja, iguala os homens. Será essa a grande falha de Deus? A de não ter criado homens iguais entre si?
“Foi esse o verdadeiro momento da criação, só com essa condenação terrível e perpétua Adão e Eva deixaram de ser imitações divinas e se tornaram genuinamente Homem e Mulher.”
Texto publicado na revista Justiça com A (17/10/18)