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O bom livro e a fogueira estão cada vez mais perto, tempos malucos e inquisidores ganham adeptos a cada dia
Affonso Duprat
A arte está acima do bem e do mal. Se é que conceitos tão amplos são aplicáveis ao golpe de frase. Uma obra de ficção, ainda mais a boa ficção, é uma espécie de reduto divino onde seu criador, onipotente, pode fazer o que bem entender entre quatro paredes. É uma zona livre onde se expõe, sem pudores e intimidades, o mais profundo e caótico da natureza humana. Sendo o livro encapado, impresso e estando à venda, depois de pronto, o leitor tem o livre arbítrio de ler ou não aquela obra. Criticar, maldizer, elogiar, debater, rogar pragas, presentear um amigo ou inimigo. Fica a critério da pessoa que, no mínimo, leu a sinopse.
Agora, ir às cegas ao encontro de um livro pode se assemelhar a um encontro mal sucedido — como naqueles chats nebulosos em que as pessoas se paqueravam sem ver a cara umas das outras. O resultado pode não dar clima. O contrário também é válido, fazendo o leitor sair fã de carteirinha do autor, podendo este último (com direito) falhar. Todo mundo vai broxar em dada altura (ou queda) da vida. Escritores podem perder a mão bem como leitores podem se equivocar. Um escritor que derrapa em um livro leva uma saraivada da crítica e dos leitores, nada anormal, e bola pra frente.
Espera-se que o próximo livro sempre seja melhor do que o Best Seller, o que geralmente não acontece.
Agora, se o autor derrapar, seja por quaisquer motivo, e por acaso um leitor resolver descer a lenha no coitado esquecendo da divisão ficção versus realidade, pobre escritor, sucumbirá à fúria das massas. Autores ruins, a exemplo, podem reencarnar em receitas repetidas de seus sucessos, algo canastrão, que serve pra enganar olhos e corações preguiçosos.
O bom autor incomoda. Põe o dedo na ferida, com sal. Queima no lugar. Nabokov, Pasternak, Machado, Ignacio de Loyola Brandão, por exemplo, geraram indignação leitores.. Motivo: romperam com o paradigma, ousaram e mantiveram pulsante suas literaturas. Se acomodar é fácil, ter sucesso é pra poucos. No Panteão, logo ao lado, há a fogueira, sempre flamejante. O sucesso e a fúria andam de mãos dadas, sempre vão existir os piromaníacos por livros (que ganham cada vez mais adeptos).
E nesse manancial de palavras elencadas na horizontal até preencher uma página, não é difícil se desagradar. Se com bons autores acontece, quem dirá com os pobres mortais? Fogo no parquinho, com livro, autor, reputação, dignidade, vai tudo junto. Uma vida de trabalho literário pode virar cinzas do dia para noite, estando cada vez mais difícil a Fênix ressurgir e salvar escritor e livro.
Clássicos, por exemplo, incomodam, por uma série de fatores, mas mesmo que a poeira se acumule no exemplar, o esmero em preservar obra precisa falar mais alto que a fogueira, até mesmo para ir à fundo na história. Uma vez escutei do dono de uma livraria, “quem tem paciência hoje pra ler um catatau?”. Felizmente, estão condenados à poeira, dos maus, o menor. Piromaníacos não ousam se aventurar por tomos. Aos mais rápidos, preferidos de quem cancela, independente de autor ou época, corre-se o risco de se acender uma fogueira santa. Nesses bicudos tempos, mais vale se acostumar a poeira, dali pra fogueira uma página lida pode bastar.