A Arte de Vencer uma Discussão | Arthur Schopenhauer

Todo o comentador de televisão ou político encontra neste livro um manual de autoajuda ou de desenvolvimento pessoal perfeito para o exercício do seu métier. O ponto de partida passa por distinguir dois conceitos: Lógica e Dialética. O primeiro coloca-nos no campo da palavra associada à razão. Desde logo, quem pretenda vencer uma discussão ou vincar uma posição, não deve alicerçar os seus argumentos na razão o que remete para a ciência das leis do pensamento e, provavelmente, exige o domínio histórico, cultural e científico do tema; uma armadilha a evitar.

A Dialética, mais do que a simples capacidade de saber manter uma conversa, transforma-se na arte da disputa, é aqui que o comentador, opinion-maker, convidado ocasional de telejornal se deve centrar e recolher as suas armas. Tudo o que remeta para a necessidade de provar um ponto de vista encontra-se dispensado pela mecânica da dialética. Schopenhauer alerta-nos para o facto da Lógica basear os seus argumentos num processo da razão pura e portanto passível de se suster a priori. Ora, todos nós sabemos como os mais sólidos princípios não nos podem guiar nem ditam o comportamento da maioria das pessoas. Já a Dialética baseia a sua construção a posteriori; todo o português conhece a máxima do comentário futebolístico de que prognósticos só no fim do jogo. Torna-se claro qual a metodologia que o autor propõe como vencedora de uma discussão: a que evite o domínio do conhecimento, em particular se for de natureza científica ou histórica. Conclusão: só nos resta a Dialética.

O autor afina esse conceito redefinindo-o para evitar confusões filosóficas ou semânticas: o que propõe é a Dialética Controversa, o ramo do conhecimento que lida com a obstinação natural do homem; a arte de disputar e de o fazermos de modo a mantermos o nosso ponto de vista, independentemente de estarmos certos ou errados. Só assim podemos manter um alinhamento ideológico e a fidelidade a uma causa sem que os nossos princípios venham a jogo e deitar tudo a perder. O objetivo é o de revestir de aparência da verdade o que se afirma com veemência. Qualquer tentativa do nosso adversário em invocar a razão ou factos para nos desmentir deve ser considerado como uma deliberada fuga ao tema. Mesmo que, em dado momento, a discussão não nos pareça favorável, devemos manter a convicção de que a nossa afirmação era a verdadeira, apesar do argumento que teria sido nossa salvação não nos ter ocorrido. Ou que, estrategicamente, tenhamos criado a ilusão no nosso oponente de, momentaneamente, termos recuado no nosso ponto de vista, apenas para o derrotar no campo dos seus próprios argumentos.

A vantagem está claramente do lado da Dialética Controversa pois dispensa a descoberta da verdade (o que exige um esforço muito grande), sendo que na maioria das vezes, a verdade, não corresponde ao senso comum e muito menos ao que a maioria pretende ouvir.

Existe um risco a ter em conta: a Lógica da aparência, uma vez que não podemos ignorar o facto de ser possível vencer uma discussão mesmo quando estarmos certos. Circunstancialmente, isso pode acontecer (o estarmos certos), sem que isso corresponda a um particular mérito da nossa parte. Contudo não devemos esquecer que premissas verdadeiras apenas podem fornecer uma conclusão verdadeira, enquanto as premissas falsas nem sempre fornecem uma conclusão falsa. Esta esgrima intelectual pode ser aperfeiçoada numa verdadeira arte do conhecimento.

O autor oferece-nos trinta e oito golpes de judo dialético, em que a força argumentativa do adversário é imediatamente usada a nosso favor, colocando-nos numa posição de vantagem. A ignorância, a preguiça mental e a frequente incapacidade de pensar (o que não impede ninguém de ter uma opinião), dos que assistem à nossa discussão deve ser usada a nosso favor como um coro que se vai manifestando em uníssono suportando a nossa posição e enfraquecendo o nosso adversário.

Em resumo: se a natureza humana fosse inteiramente honrada, não deveríamos, em nenhum debate, ter outro objetivo que não a descoberta da verdade. Felizmente, esse raramente é o caso.

A Arte de Vencer uma Discussão, de Arthur Schopenhauer, A Alma dos Livros, 2022.

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