25 de outubro de 1946. Sala H3 do King´s College da Universidade de Cambridge. Data e local do único encontro entre dois dos maiores nomes da filosofia do século XX: Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e Karl Popper (1902-1994).
Encontro ou confronto? Na verdade, Popper foi à sala H3 com espírito de confronto, com sua alocução (Existem problemas filosóficos?), cujo objetivo era acabar com a corrente wittgensteiniana que dominava Cambridge.
Acostumado a dominar e quase monologar nessas reuniões (na referida sala funcionava a Associação de Ciências Morais, da qual era presidente e criador), Wittgenstein ficou furioso e até o ameaçou com um atiçador de lareira, antes de se retirar.
Eis o cerne de O atiçador de Wittgenstein[1]. O incidente é um pretexto para que David Edmonds & John Eidinow (jornalistas da BBC) façam um competente levantamento biográfico dos dois oponentes, uma boa (embora tendenciosa) divulgação das suas idéias básicas e mais influentes, além de um perfil de Viena, onde ambos os adversários nasceram: “Os que se enfrentaram na H3 haviam visto a catástrofe do nazismo e da guerra varrer a sua cultura, ameaçar e destruir suas famílias. Mas um [Wittgenstein] tinha fortuna e influência que lhe davam a liberdade de ir aonde mandassem suas inclinações, pessoais e filosóficas; o outro [Popper] só podia contar consigo mesmo na tarefa de construir um lugar na filosofia em que pudesse deixar sua marca e com o qual ganhar a vida”.
O problema do livro é o mesmo de outros que abordam em paralelo duas grandes figuras: a balança sempre pende para um lado. No caso, é visível uma simpatia maior por Wittgenstein, o “mais rigoroso e exigente de todos os intelectos” que já existiram, mesmo que fosse mal educado, não deixasse ninguém falar, quisesse ter a última palavra… Ele é visto como um líder carismático, um profeta, um místico, um vidente (Rudolf Carnap: “…depois de um esforço árduo e prolongado, sua resposta aparecia, a afirmação ficava diante de nós como uma obra de arte recém-criada, uma revelação divina”!!!??).
Quanto a mim, me interessei por O atiçador de Wittgenstein porque Karl Popper foi uma leitura decisiva em minha vida, através de obras como Conjecturas e Refutações & Autobiografia intelectual (onde há uma versão do incidente na sala H3 contestada por Edmonds & Eidinow, embora eles cheguem à conclusão de que não mentiu, que sua memória forjou um significa simbólico, ressignificando os acontecimentos; mas, de fato, não há como reconstituir de maneira confiável o episódio, mesmo consultando as atas da Associação).
Na minha visão de leigo, é como se ele fosse um Thomas Mann da filosofia. Enquanto que a obra de Wittgenstein, cujos pontos principais são o Tratactus Logico-Philosophicus (sua versão inglesa, responsável pela enorme influência do filósofo austríaco, apareceu em 1922, ano-ápice para o Modernismo, com a publicação de Ulisses, de James Joyce, e The waste land- A terra arruinada, de T. S. Eliot) & Investigações filosóficas, é um osso duro de roer (quase tão duro quanto o de Heidegger), e bem que eu já roí um pouco.
Segundo Edmonds & Eidinow a influência de Wittgenstein manifestou-se entre os próprios filósofos (principalmente aqueles preocupados com o aspecto lingüístico) e artistas; a de Popper estendeu-se ao mundo prático dos negócios, da política e da ciência. Ele foi o guru inspirador do mega-investidor George Soros e, ao que parece, era o pensador favorito de Margaret Thatcher (veja só, leitor, em que má companhia nos metemos sem querer).
Popper acreditava em enfrentar os grandes problemas da filosofia. O homem que o ameaçou com o atiçador achava que não existiam problemas, apenas perplexidades, advindas do fato de estarmos condenados a cair dentro de redomas porque nosso pensamento é produto da linguagem.
Diferenças à parte, o traço que os une é a paixão intelectual e moral: “Não bastava estar certo a respeito das grandes questões—a paixão era vital. Hoje, esse senso de urgência intelectual se dissipou. Tolerância, relativismo, recusa pós-moderna a compromissos, triunfo cultural da incerteza—tudo isso descarta uma repetição do espetáculo de virtuosismo da H3”.
E quem venceu na H3? É preciso ler O atiçador de Wittgenstein, pois além de tudo é um dos lançamentos mais divertidos dos últimos tempos.
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 09 de março de 2004)
[1] O atiçador de Wittgenstein- A história de uma discussão de dez minutos entre dois grandes filósofos é a tradução (feita por Pedro Jorgensen Jr.) de Wittgenstein´s poker, 2001).





