Maria Paula Curto*
Esse foi um ano difícil. Poderia dizer que teve um pouco de tudo e de tudo um pouco. Às vezes, até “um pouco muito”, eu diria. Teve a subida mais linda e inclusiva da rampa do Palácio do Planalto – confesso que algumas lágrimas rolaram por essas bochechas sem colágeno – e, sete dias depois, aquele ato verdadeiramente insano, que além da destruição descarada, ainda tentou derrubar tudo aquilo que nos permite coexistir pacificamente, em sociedade. (se você conhece outro sistema melhor, só me falar, ok?) Uma vergonha. Ainda bem que passou. E nós, uma vez mais, sobrevivemos. Ufa! Foi quase…
Teve viagem para Floripa, ainda em janeiro, para comemorar o aniversário da filha mais velha que é a mais nova, com direito a praia, lagoa, caipirinha de physalis, bingo drag, encontro com amigos de longa data e amigas recentes que só conhecia por tela. E teve também aquele que foi o melhor bacalhau do ano, quiçá da vida, na Marisqueira de Cintra. Com arroz caldoso de camarão e baba de camelo de sobremesa. Gostoso que só. Até a filha mais nova que é a mais velha, curtiu o tal do arroz. Novos tempos.

O “Sonho norte-americano” em família, na Disney. Foto: Acervo da autora.
Teve também o Beto Carrero, a Disney brasileira, para eu lembrar que ainda sou louca por uma bela montanha russa ou por tudo aquilo que, de uma forma razoavelmente segura (vamos pensar que temos uma boa manutenção dos equipamentos), me joga do alto, me vira de lado, roda 180º, para a direita, para a esquerda (melhor, sempre melhor), para cima, para baixo, e de novo, de novo, de novo, me fazendo confundir céu e terra (que delícia!) e, pasmem: não é sexo! Ou seja, não preciso nem me preocupar em sequer agradecer ou ser gentil. Nem tchau eu dei. Maravilha!!!
Teve Carnaval em SP, com idas aos blocos e a descoberta de que, agora, do alto dos meus 56 anos, estou preferindo um livrinho ou uma Netflix. Que horror! Para quem desfilava em quatro escolas de samba no mesmo ano, isso é o fim dos tempos. Pois é, meus caros, “Greta Garbo, quem diria acabou no Irajá”, ou melhor, em Pinheiros.
Teve muito trabalho também. Amém. Teve filha sofrendo muito por estranhar o ensino médio e teve filha em crise de ansiedade pela chegada do mesmo ensino médio. Teve bullying, teve racismo, teve etarismo, teve misoginia. É, amigos, não foi fácil. Mas se estamos aqui, a caminho desse tal 2024, é porque aquilo que não nos mata, nos fortalece. Ando mais cascuda que nunca. Mas, sinceramente, estou trocando essa casca toda por uma pitadinha de esperança. “Você quer trocar uma treta maligna por uma dose de fé na humanidade? Sim!!!” Eu responderia na lata. Sem nem piscar. Vivo por um lema: quero ser feliz, não quero ter razão. Mas isso já é desejo para 2024…
Teve Covid-19 novamente. Mesmo com cinco vacinas, a danada voltou a me pegar. Teve um quase desmaio, com a pressão literalmente me jogando no chão. E teve, logo em seguida, coração disparando e pressão subindo, com direito a duas idas ao pronto-socorro. Um belo susto. Ainda bem que foi apenas um susto. Não, não foi dessa vez. A causa? Certamente stress. Mais uns quilinhos de velhice, umas gramas de sedentarismo e o tal efeito da menopausa que não passa sem deixar rastros. Não se brinca com hormônio. Nem com essa vida louca que a gente insiste em levar. Achando que ficaremos impunes para sempre. Não ficaremos. É preciso cuidar desse nosso único instrumento de “estar no mundo”: o corpo. Ele, este ano, fez questão de me lembrar disso.
Teve viagem para a Argentina!! Deu até gosto de ver meu coroa, todo todo, andando cerca de 10 km por dia em Buenos Aires, conhecendo tudo e se encantando com o Colón e o Caminito, que deixou de ser só Maradona e abriu espaço para o Messi. Deu até invejinha. Desculpem aqueles que curtem, mas Neymar Jr. não, né, por favor. Foi lindo degustar vinho, champagne e azeite, com vistas para a Cordilheira dos Andes com seus picos nevados em Mendoza. Foi delícia sim. Teve briga? Só um pouquinho, no final. Mas sem discussão, não seria a família Curto. Nem a Silva, ou a Souza ou a Ferreira…

Teatro Colón, em grande companhia. Foto: Acervo da autora.
Teve guerra também. Aliás, continua tendo. E não só em Gaza. Nem só na Ucrânia. Na África? Certamente. Mas tem guerra aqui pertinho também. Nos morros, nas vielas, na Cracolândia. Não pense que não estamos em guerra. Se 3600 mortes diárias ou 1 morto a cada 23 segundos não é uma guerra, eu não sei o que é guerra. E a nossa guerra não começou em 2023 e, infelizmente, não vai acabar em 2024.
Teve ida ao RJ para visitar o tio biônico e a tia querida. Família é para isso. É para estar por perto “na alegria e na tristeza”. E é muito bom estar por perto. E abraçar a irmã de alma, que fazia tempo que eu não via de verdade, assim ao vivo e a cores e matar a saudade do cineminha com barzinho que a gente costumava fazer. O bom é que o tempo passa, mas essa proximidade fica. E de quebra, ainda pude curtir ela, Copacabana, a princesinha do mar. E comer um escalope ao molho madeira com arroz a piemontese no Lamole! Como vocês podem perceber meu 2023 foi bem gastronômico também.
Teve surpresa e decepção. Teve amizade se fortalecendo e amizade escorrendo pelo ralo. Deixei ir. Faz parte. Abre caminho para o novo. E a gente fica mais leve.

Que venha 2024, com novas histórias, outras possibilidades. Já estou aqui, te esperando. Foto: Acervo da autora.
Teve saudade. Muita saudade. Dela. Sempre. Em janeiro, em fevereiro, no dia das mães, no dia dos pais, na Argentina, no RJ, em São Lourenço, enfim, em qualquer lugar, em qualquer mês. Porque não importa o tempo ou o espaço, a saudade dói apertada, já que ela mora em mim.
Vai em paz 2023. Que venha 2024, com novas histórias, outras possibilidades. Já estou aqui, te esperando.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP