05
Abr22
Maria do Rosário Pedreira
Quando, aos domingos à tarde, vou fazer companhia à minha mãe quase centenária, costumo levar comigo o livro que ando a ler, achando possível que ela queira dormitar a seguir ao almoço. Mas, na verdade, ela aproveita sempre a minha presença para conversar e partilhar histórias fascinantes do seu passado; e, com isso, saímos ambas a ganhar e o livro a perder. Ora, como vou para casa dela a pé e há normalmente um pedido de bolos, envelopes ou qualquer outra coisa, na semana passada decidi que não iria carregada com o livro que há mais de dois meses transporto em vão (esse ou outro, enfim). Mas, ao contrário do que pensei, como mudara a hora no sábado, ela tinha perdido uma hora de sono e estava a recuperá-la quando lá cheguei... Enfim, fui à estante lá de casa desencantar alguma coisa curta e dei com um livro de que nunca ouvira falar: Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, de Dinis Machado, com algumas ilustrações de Fátima Vaz, uma pequena delícia publicada originalmente em 1984. Mas que bela surpresa é este texto com o cais de Lisboa como pano de fundo e alguns homens do mar de faca na liga, os barcos ("brancos, azuis e furta-cores") como protagonistas e tudo aquilo que podia estar realmente num fado de Marceneiro, sem esquecer a Rua do Capelão... Se não conhece, procure e leia; é uma condensação de beleza e graça em vinte e tal páginas. Uma viagem de metro ou de autocarro e já está!