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Nov22

Maria do Rosário Pedreira

De súbito, respirou fundo e disse:

– Isto faz-me lembrar...

[...] Que lhe fará isto recordar?, perguntei a mim mesmo. Será o pato na loja de ferragens? O cavalo do bar? O rapaz que chegava aos joelhos de um gafanhoto? Far-lhe-ia lembrar o ovo de dinossauro que encontrara certo dia e que a seguir perdera, ou o país que em tempos governara durante quase uma semana?

– Isto faz-me lembrar – repetiu ele – o tempo em que era rapaz.

Olhei para aquele velho, o meu velho, como os pés brancos e velhos metidos na água límpida do rio, nesses momentos que se contavam entre os últimos da sua vida, e de súbito pensei nele, simplesmente, como um rapazinho, uma criança, um jovem, com a vida inteira à sua frente, tal como a minha estava diante de mim. Até então nunca o vira daquele modo. E essas imagens – o hoje e o ontem do meu pai – convergiram e, nesse instante, ele tornou-se um ser misterioso, selvagem, simultaneamente velho e novo, moribundo e recém-nascido.

O meu pai transformou-se num mito.

Daniel Wallace, O Grande Peixe, tradução de Ana Falcão Bastos