Tanto peso na cabeça
Como consegues
caminar com os pés
descalços sobre as águas dos esgotos
esgravatar os
restos de comida no melo do lixo
dar o seio murcho
ao filho que vai morrer
abrir as pernas à
violencia do bêbado
beber a àgua que
a terra não quis
sobreviver à
febre picada na pele
comer o peixe
coberto de moscas
dançar as mágoas
na areia da praia
à lua cheia
limpar as ramelas
dos filhos com o teu próprio cuspo
lavar a roupa sem
àgua limpa
fazer-te bonita
sem a magia do espelho
catar os piolhos
nos cabelos dos outros
dar força aos
mais velhos na caminhada
dormir num chão
de baratas e ratos
parir um filho
por ano
enterrar as
pernas das crianças que saltan nas minas
saciar a fome dos
mais novos nos teus seios
transportar tanto
peso na cabeça
esboçar um
sorriso quanto te pergunto o preço das mangas
abre-me os olhos,
mulher, explica-me como consegues
porque há dias em
que sou eu que não aguento.


