Luciene Azevedo 

Créditos da imagem: Nathanaelle Herbelin, Dans ma paume ta pensée, 2023.


Lá se vão quase 50 anos da primeira vez que Serge Doubrovsky colocou à prova a observação de Philippe Lejeune de que não tinha notícia de nenhuma publicação na qual o autor fosse também narrador e personagem de sua história e desse a esta produção o estatuto de ficção. 

Mas qual é o estatuto da autoficção hoje? Se o termo já é acolhido com facilidade mesmo pelas fichas catalográficas dos livros, como acontece, por exemplo, com O livro de meu pai de Djaimilia Pereira, demonstrando sua acomodação ao sistema editorial, não é possível deixar de notar como contraponto a esta aceitação uma resistência não apenas por parte dos autores, mas também por certa produção teórica. 

A instabilidade entre a autobiografia e a ficção, evidente na composição do neologismo, funciona também como uma espécie de cabo de guerra entre os gêneros não ficcionais e a literatura de ficção. Embora muitos autores usem e abusem da ambiguidade inerente à noção, é comum uma simplificação de seu paradoxo pelo recalque do biográfico em detrimento da ficcionalidade, como o faz Vila-Matas, por exemplo, quando afirma em Montevideo que a autoficção “não existe porque tudo é autoficcional porque começa com alguém criando algo” . 

Não posso negar minha fascinação quando comecei a estudar a gigantesca produção teórica francesa sobre a autoficção e seus embates sobre o entendimento da noção. Quando no início do século XXI, no Brasil, os autores começaram a explorar a ambiguidade da exposição dos dados autobiográficos em meio à invenção de si, era este o jogo que me interessava, o modo como desestabilizava a associação entre a literatura e a ficção. Quase sempre este jogo era exposto sem velos, metaficcionalmente, no próprio texto, como o faz Ricardo Lísias, no seu controverso Divórcio, ao afirmar que a ex-mulher a que o texto se refere “não existe: é personagem”, apenas para adiante, gritar em caixa alta que o que narra “ACONTECEU NÃO É FICÇÃO”.

Hoje, tudo é um pouco mais complicado ainda, já que apenas há mais ou menos 10 anos o mundo anglófono dá atenção ao termo de forma consistente. E provavelmente surgirão outras maneiras de lê-lo. Para mim, que mantenho o interesse em produções que exploram o escrutínio da primeira pessoa do autor em meio às narrativas atuais, o termo assumiu outras nuances. Já não me interessa o jogo com a ambiguidade entre o caráter autobiográfico da narrativa e o que é inventado. O mais instigante é perceber como o termo é um indicativo de um rearranjo das fronteiras mais amplas da ficção, da literatura e do modo como lemos romances. Mas não só: é também um sintoma de uma guinada subjetiva, que aponta para um interesse renovado no escrutínio da identidade, nos projetando para encarar a maneira como nos compreendemos como sujeitos do século XXI. 

Se as lições críticas que aprendemos com o século XX nos diziam que deveríamos recalcar a primeira pessoa ou que as subjetividades eram apenas máscaras, é curioso como experimentamos, hoje, nossa “fome de real”, o desejo de presença, a tentativa de investigar (outra vez) o que nos constitui como sujeitos de nosso tempo. Me parece que o que começa como um desafio, como um experimento textual, tornou-se um problema epistemólogico muito maior, que pode ser útil para pensar a desestabilização dos regimes de verdade que enfrentamos com as fake news e com os fatos alternativos, mas, principalmente, para nós, que estudamos a literatura e estamos desde Platão e Aristóteles a pensar na ficção.