À espreita sob o colchão, está a Segunda. Dessa vez, não há sibilos. Ainda. A Segunda se enrosca pelo pé da cama e sobe, sorrateira, inaudível

Isabela Nunes

— Melhorou a alergia?

— Ah, mais ou menos.

— Ô I.?

— Quê?

— Você acha que o papai é feliz? Depois de tudo e tal?

(…)

— Sei lá, às vezes eu fico pensando se alguém se recupera mesmo de uma coisa daquelas. E fico pensando se, sei lá, não passou pra gente de alguma forma. Você não tem medo?

— Sei lá, não gosto de pensar nisso porque não sei se tem alguma coisa que a gente pode fazer pra mudar, se tiver na gente também. Mas acho que ele deve ser feliz sim, pelo menos diz ele que é. Que tá tudo bom do jeito que tá e tal, que tem uma vida boa, que vive no próprio éden particular. Mas eu não sei também se queria ter uma vida boa dessa do tipo que ele tem, J.

— Como assim?

— Não sei. Talvez seja mais fácil assim pra ele porque vai ver impede que ele volte a ser o que era né. Talvez ele volte pro barro se ficar querendo demais, sacou? Mas ele parou no tempo, J. Nada é relevante pra ele. Ele é um Conformista. É tudo igual pra sempre. E tá tudo bom pra ele pra sempre. E aí a cabeça dele é sempre igual e nada nunca muda e parece que nesses meus vinte anos de vida não deu pra identificar nenhuma mudançazinha significativa em como ele vê o mundo. Isso pra mim é pior que morte, J.

— Pra você tem que ser como? Tipo, tá, se a vida do papai não é vida boa pra você, o que é então?

— Sei lá. Talvez tipo. Sabe quando você sem querer acha uma música incrível e aí pensa tipo nossa é isso? E daí fica nesse loop por semanas, querendo mais, querendo sentir aquilo de novo. Ou quando você vê um filme maravilhoso, todo perfeitinho e sincero, e parece que ele te suga pra um lugarzinho especial dentro de você e aí você fica procurando mais e mais filmes porque quer mais daquilo? Ou quando você encontra um livro ou um autor que se conecta tanto com você e com quem você é que é quase uma extensão sua, como um braço ou uma perna extra que você não sabia que existia e precisava, e você fica tão extasiada que lê tipo cinco livros no espaço de cinco dias pra tentar descobrir mais? É isso pra mim. Nada de ficar parada. Eu quero esse sentimento de mais. É isso que eu quero. Mais.

— Mas é meio que insustentável né. Porque se cê tá sempre procurando alguma coisa e querendo mais, o que acontece com o que você tem agora? O que acontece com a música e o filme e o livro de agora se você tá sempre preocupada com qual vai vir depois? Tipo daí nunca tem um agora.

— É, mais ou menos. Mas daí que eu tenho que ser cuidadosa pra escolher pra qual música e livro e filme eu vou me entregar assim sabe. Se é que é uma escolha, pra começo de conversa. Porque quando eu me canso, tipo enquanto eu tô fora dessa euforia toda, é tranquilo. Mas depois que isso de mais começa eu não consigo parar.

— Não acho que você é tão diferente assim do papai, I.

— Por que?

— Isso de querer mais e não conseguir parar é meio que a própria definição de vício. Não? Mas daí que você nunca vai sentir de novo o que quer que você tenha sentido pela primeira vez que te fez querer mais. E daí que o sentido da sua vida fica tão limitado que você perde todo o resto e não vive nada. E aí cria esse tipo novo de catatonice dinâmica porque fica parada ao mesmo tempo em que tá aí procurando coisa pra cabeça nesse ciclo eterno de descobrir-querer-mais-se-cansar. Você tipo não caga nem sai da moita. Finge pra si mesma que tá saindo do lugar quando na verdade nem escolheu pra onde ir ainda.

(…)

— Porta fechada ou aberta?

— Fechada.

— Boa noite, I.

****

No princípio era o Verbo.

E eis que a Terra era sem forma e vazia

E havia Trevas sobre a Face do Abismo

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.

E viu Deus que era boa a luz; e separou Deus a luz e as trevas, e as teceu Deus de modo que o fim desta fosse começo daquela, chamando-as Dia e Noite.

E dissemos Nós:

Olha como Dança essa filha da puta.

E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

****

I. quase-dorme. Olhos fechados, respiração lenta, barriga subindo e descendo. I. delira ou sonha com três velhinhas digitando parcamente zeros e uns em um fio algorítimico infinito.

A Primeira chega, sibilante.

****

E disse Deus: Haja uma Montanha e uma Pedra, e haja Alguém para carregá-la até o topo e vê-la cair por todo o sempre; e assim foi.

E então criou Deus o Homem à sua imagem e semelhança, dando o nome Adão ao pó de terra recém-soprado de fôlego da Vida; e viu Deus que era bom.

E da costela de Adão surgiu Eva, que não era à imagem e semelhança de ninguém porque não era Homem e porque não havia Deus o talento artístico para fazê-la se parecer com uma costela de pó de terra. E a Vida de Eva, pois, desde o princípio foi composta de solavancos que lhe deram esse aspecto incoerente, pecador. Pois que, à semelhança de ninguém, estava sempre a buscar o próprio espelho. E pois que, sempre a buscar, era a única criatura dentre as criaturas de Deus que guardava dentro de si coragem.

E para Adão e Eva criou Deus um formosíssimo jardim, chamando-o Éden, e nele fez brotar duas árvores; a primeira era a da Vida, que garantia a imortalidade dos deuses; a segunda, a Árvore do Bem e do Mal, cujo fruto era o conhecimento dos deuses; e viu Deus que era bom.

E foi a tarde e a manhã, o dia segundo.

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I. puxa a coberta rosa-amorangada até o queixo, atenta. A luz do quarto acesa, olhos perscrutando os cantos mais escuros. Lá fora, o barulho distante da televisão do quarto dos pais e dos carros atravessando a rua de baixo. J. ronca, audivelmente. O tio cego levanta-se para beber água; há um som de pés tortos se arrastando contra o chão e da porta do corredor se destrancando. I. contém o impulso de ir até ele, verificar se está bem. I. contém o impulso de chorar, pensando nos pés tortos. Ela estende a mão, corajosa mas insegura, os olhos agora pesados de sono, e há um clique. Apaga-se a luz. I. se deita, remexendo a cabeça sobre o travesseiro para achar um ângulo confortável. Fecha os olhos. Dorme.

À espreita sob o colchão, está a Segunda. Dessa vez, não há sibilos. Ainda. A Segunda se enrosca pelo pé da cama e sobe, sorrateira, inaudível. Serpenteia pelos morangos costurados no rosa, rasteja pelos morros formados pelas pernas de I., se insinua para frente, para cima, para o rosto de I. A Segunda se coloca sobre suas pálpebras sequidamente alérgicas, pálpebras cobertas de listras brancas, envelhecendo, descascando, pálpebras de pele feia e desgastada. A Segunda estaciona ali, vigiando, aguardando o momento da ecdise.

Agora, apenas um som na noite:

Ssss.

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E concebeu o Senhor a Liberdade e o Livre-Arbítrio, dizendo: sois livres para escolher e decidir por vós mesmos vossas ações.

E em seguida, pois era muito espertinho, criou Deus a imaginação, que tornou possível desejar a Escravidão na medida exata em que se deseja a Liberdade, e aquele que carregava a pedra se viu apaixonado pela pedra, e o castigo deixou de ser temido e passou a ser ansiado, e o Homem não tardou a descobrir que Liberdade era um conceito Complicadinho no que agora era o imaginário humano.

E disse o Homem: ó Poder Superior que estais no Céu, nos diga o que fazer, faça-nos tua marionete, torne-nos submissos, tome Tua Santificada Liberdade de volta, Agradecemos Mas Vamos Deixar Para Uma Próxima; amém.

E eis que a Liberdade passou a ser Tecido Costurado. E, pois levava seu papel de ditar regras muito à sério, disse Deus: Assim Seja, sereis livres na ignorância enquanto fordes escravos e estareis presos na teia que vossas escolhas tecerão. Não comeis da Árvore do Bem e do Mal, porém, pois certamente morrereis.

E viu Deus, muito satisfeito, viu Deus que era tudo muito bom.

E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

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I. observa curiosa as cascas transparentes em formato de cobra jogadas ao pé da cama. Vestígios que ela não teve coragem de jogar fora, para convencer a si mesma de que não estava louca. Ela passa a mão pelo olho alérgico e sente-o menos árido, embora ainda esteja coçando. Mão. Dedos. Interruptor. Não-luz.

I. dorme.

A Terceira chega, repousando sobre a montanha de braços.

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