Fotografia da minha autoria

«Especial com a superestrela britânica»

A memória atraiçoa-me, porque não me recordo se foi Someone Like You ou Rolling In The Deep que me permitiu cruzar com uma artista que, direta ou indiretamente, representa as minhas emoções, ainda que as nossas histórias sejam antagónicas. Apesar disso, foi a voz que me conquistou de imediato e por completo.

DE BRAÇO DADO COM ADELE

Um dos motivos que me fascina em Adele não é o alcance vocal. Ou, melhor, não é apenas esse fator. O que me desarma é a intensidade com que o faz, como se levasse o mundo inteiro no peito. Portanto, torna-se uma experiência visceral escutá-la, lendo-nos a alma. E aquilo que eu pretendo, enquanto eterna amante desta arte, é ter artistas de referência que interpretem todas as minhas dores, por mais que os nossos percursos divirjam.

É curioso, quando regresso aos seus temas mais antigos, como o álbum 19 permanece um pouco esquecido [e talvez seja aquele com que menos me identifico], mas o 21 e o 25 continuam a ter tanto impacto na minha jornada. E é a eles que regresso sempre que necessito de exteriorizar sensações e pensamentos, ou de, simplesmente, fazer uma viagem mais intimista, sobretudo, para desbloquear no meu processo de escrita.

Há uma verdade que se torna quase catártica nas suas letras, por isso, entusiasmo-me perante as suas novidades. E após escutar a Easy On Me e de me perder no 30, a transição para o documentário foi natural, até porque seria mais uma maneira de compreender melhor a sua essência artística - que eu tanto admiro.

UMA NOITE ÚNICA

O concerto foi gravado no exterior do Observatório Griffith, em Los Angeles, e interligou as músicas antigas de maior sucesso e algumas das mais recentes do seu disco. Assistir a este momento, ainda que à distância e em diferido, foi arrepiante, no melhor sentido possível. Porque há uma história nas entrelinhas. Porque há magia e uma dose de poesia na sua presença em palco. E porque, inevitavelmente, o poder da sua voz é surreal. Talvez um dia tenha o privilégio de a escutar ao vivo, sentindo na pele as camadas da sua interpretação.

Este especial ficou, também, marcado pela conversa com Oprah Winfrey, no seu jardim de rosas. Entre os vários temas explorados, com particular foco na vida após o divórcio, na relação com o pai, na perda de peso e no seu filho, fiquei presa a um assunto específico, porque a música revelou-se, em simultâneo, um processo de descoberta e de cura, alcançando sensações que nunca pensou sentir. Honestamente, creio que é isso que as suas canções despertam em nós: estados de alma profundos, que julgávamos ocultos ou inexistentes.

A Adele é intensa e ensinou-me que não há vergonha em assumirmos que estamos destroçados. Além disso, teremos sempre montanhas para escalar, mas, se continuarmos a caminhar, a vista pode ser maravilhosa.