Fotografia da minha autoria

«O cair da primeira peça de um dominó»

A comunicação é fundamental em qualquer relação, porque permite-nos conhecer o outro, definir limites, construir um lugar de partilha seguro, ser lar e alertar para sinais que não podemos ignorar, com o receio de ver os elos a quebrar. O problema surge quando o silêncio se intensifica e proporciona uma rotina em espiral, transformando a felicidade num traço de conformismo. E esse nunca poderá ser um caminho saudável.

Chegar a Casa - a nova aposta da RTP 1 - parte desta premissa para nos contar a história de um casamento fracassado, que será apenas o despoletar de algo maior. Assim, tal como rapidamente se percebe através das notas de impressa, acompanharemos Marta a regressar às origens, depois de 15 anos a viver em Santiago de Compostela. Gravada entre Portugal e Espanha, esta série confronta-nos com várias problemáticas: a sensação de sermos trocados, o desgosto, o julgamento alheio - em meios mais pequenos - e que tantas vezes vem das nossas pessoas e, naturalmente, as feridas que demoram a sarar. Além disso, há algo que fica comprometido: a confiança. E, portanto, constroem-se muros que impedem o reconhecimento da mágoa, a aproximação de terceiros, o pedido de auxílio e a aceitação da partida para libertar os fantasmas do passado.

Creio que é necessário fazermos o nosso luto, quando a vida nos vira do avesso. Mas o processo pode ser moroso, porque os nossos sentimentos têm voz própria e um ritmo que nem sempre se coaduna com a nossa vontade. Por esse motivo, sinto que este projeto tem um tom bastante proximal. Considerei algumas cenas um pouco exageradas, mas a verdade é que não deixa de ser um espelho de como o fim de um relacionamento pode ser vivido - e como um acontecimento desta dimensão influencia tantas áreas da nossa existência.

No retorno a casa, a protagonista procura reencontrar-se e acalentar força para se reerguer. No entanto, não há só dor e drama neste argumento. Pelo contrário, tem um traço descontraído e com sentido de humor. E até no exagero, que mencionei anteriormente, consegue desconstruir o assunto, arrancando-nos gargalhadas sentidas. Em simultâneo, é fascinante como as personagens assumem características simples e refletem uma subtil crítica à sociedade. Com muitas rotas a serem exploradas - porque o divórcio é, de facto, uma gota no meio do oceano -, deambulamos pelos Arcos de Valdevez para conhecermos as camadas desta história.

Chegar a Casa é uma viagem intimista, visceral, pelo mundo tão complexo das relações humanas. E é, também, uma mensagem sobre a importância de renascermos a cada nova adversidade, atendendo a que nós não somos um só momento. E, mesmo que o coração se fragmente, haveremos de encontrar o nosso lugar - físico e emocional. E de nos redefinirmos nele. Porque aprendemos a cair e a não permanecermos no chão.