Fotografia da minha autoria

Tema: Um livro assustador

Avisos de Conteúdo: Droga, Doenças Mentais, 

Rapto, Violência, Linguagem Explícita

Um leitor, quando se envolve de corpo e alma numa história ou se identifica com um escritor em específico, reconhece o privilégio de conversar sobre os desenlaces narrativos e, sobretudo, de privar com a mente por trás dos mesmos. Numa perspetiva sem segundas intenções, é uma dinâmica saudável e bastante benéfica. O problema surge quando a obsessão assume protagonismo e se ultrapassam todos os limites. Portanto, para o tema mensal do Uma Dúzia de Livros, segui este fio condutor e fui, finalmente, descobrir Stephen King.

«As trevas antecederam a dor e a nuvem escura»

Misery tem uma premissa simples e o seu tom inicial apresenta uma leveza falaciosa. Porque há algo no seu desenrolar que nos aproxima de um ambiente inquietante, insano. Além disso, através de detalhes intencionais, torna-se percetível que é ténue a linha que separa a realidade da ficção; a loucura da consciência. E é neste limbo, neste jogo de sombras e ilusões, que se vai revelando, em nós, uma sensação de desconforto - ao mesmo tempo que permanecemos convictos de que tudo pode escalar e resvalar num único segundo.

«Soltou uma gargalhada, gemeu, e depois gritou»

O enredo alicerça-se numa perseguição diabólica, que expõe um terror muito mais psicológico do que físico, ainda que o segundo também se manifeste. E é impressionante como o autor nos envolve num abismo sufocante, atendendo a que nos deparamos com um cenário fechado e um número de personagens reduzido. É, portanto, um relato intimista e perturbador, que nos agonia com a sua linguagem explícita. Comparado a uma Xerazade dos tempos modernos, Sheldon, num estado vulnerável, escreve para sobreviver, enquanto Annie, com uma personalidade bipolar, desconcertante, se revela uma protagonista genialmente construída.

«Quase desmaiou, aterrorizado como nunca se sentira antes»

A atenção aos pormenores, o ritmo claustrofóbico, a subtileza das patologias mentais e os pensamentos que acompanham o discurso do narrador aprofundam as camadas complexas desta obra. Em simultâneo, fascinou-me o facto de estar a ler um livro dentro de outro livro e a desconstrução do protagonista, que me surpreendeu em várias das suas decisões. Confesso, ainda assim, que houve partes que dispensaria, porque senti que acrescentavam pouco à narrativa, tornando-a mais lenta. Mas, acredito, isso não lhe retira qualidade.

«Talvez o outro mundo seja melhor do que este»

Misery apresenta contornos macabros, com devaneios antagónicos, que deixam o desenlace mais intenso e visceral. Com passagens desarmantes e uma reviravolta que me deixou boquiaberta, é um livro fabuloso.

«A verdade, na realidade, não é mais estranha do que a ficção»

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