15
Dez20
Maria do Rosário Pedreira
Quando acabo um livro, demoro a escolher o seguinte entre tantas e tantas hipóteses e, pelo caminho, acabo por ler coisas pequenas que matam (fazem viver) uma ou duas noites de indecisão. Foi esse o caso com esta pérola de que hoje vos falo: Uma Paixão Simples, da escritora francesa Annie Ernaux. Quem já se apaixonou a sério alguma vez, entenderá este livro até ao osso, quando a pessoa que amamos ocupa realmente tudo dentro de nós e passa a comandar o nosso tempo, os nossos pensamentos, as nossas acções, neutralizando tudo o resto. Este é um livro brutalmente sincero sobre uma relação amorosa (presumo que autobiográfico) de uma mulher divorciada com um homem mais jovem, estrangeiro, belo, casado, a morar temporariamente em França. E sobre o que essa relação consome quando se concretiza, mas sobretudo enquanto não se concretiza, quando o homem não aparece, não telefona, não nada. Uma maravilha também por ser um livro sobre a paixão e sobre o contar da paixão, que são coisas muito diferentes e que surpreendem a própria narradora na leitura do que ela própria escreveu. Muito bom mesmo, não percam por nada deste mundo. Se houver alguém que não se reveja nele, é porque nunca amou perdidamente.