Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Não lembro quando ouvi falar de Guy de Maupassant, mas foi há bastante tempo. A primeira vez que foi despertado em mim o desejo de ler suas obras foi quando vi Conta Comigo, jovem clássico, como diria Pablo Vilaça. Naquela época, eu já sabia que o conto mais famoso de Maupassant era Bola de Sebo, mas não fazia a menor ideia da trama. No filme, lembro que alguém conta a história do pobre menino Bola de Sebo, que, numa competição de comer sanduíches, se não estiver enganado, vinga-se de todos aqueles que judiaram dele pelo fato de ser gordo, vomitando tudo que acabara de comer e dando início à maior sequência de vômito que já vi (num filme e fora dele).

Eu imediatamente associei aquele Bola de Sebo ao conto de Maupassant, e por anos (acredito que tenha visto o filme por volta de 1990, 1991), esperei a oportunidade conhecer a versão escrita da história. Aí veio, não sei quando, Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, e, também não sei como, descobri que a música era inspirada diretamente no conto de Maupassant. Meu fascínio aumentou. De lá para cá, numa espécie de masoquismo literário, tive oportunidade de ler várias vezes o autor francês, mas por pequenos caprichos acabava adiando esta realização. Em julho estive em Brasília e estava decidido: se encontrasse Maupassant, compraria de imediato. Deparei-me com duas opções: este livreto sobre o qual escrevo e este aqui, que, a princípio, deveria me interessar mais, pois traz o tão aguardado Bola de Sebo.

Parte manifestação do meu masoquismo literário, já citado várias vezes no blog, e que tem feito com que eu, muitas vezes tenha adentrado o universo de algum autor não pela sua obra mais famosa, parte por preciosismo de leitor chato mesmo, optei pela edição da Artes e Ofícios. Explico esse “preciosismo de leitor chato”: enquanto a edição da Artes e Ofícios traz apenas quatro contos, a da Companhia das Letras traz, como o próprio título já diz, 125 contos escolhidos. O da Artes e Ofícios custa R$ 27,00, o outro, R$ 59,50. Nem dá para comparar a relação custo/benefício, não é?

Mas meu lado chato falou mais alto. Essa coleção da Companhia das Letras de contos escolhidos tem umas capas simplesmente horríveis, muito feias mesmo, e eu valorizo muito a parte gráfica e de acabamento de um livro. Neste quesito, a pequenina edição da Artes e Ofícios é primorosa, lembrando muito a Cosac & Naify. Capa bem trabalhada, contracapa, aquelas folhas internas completamente pretas, que dão um visual sofisticado, uma introdução muito bem escrita, breves notas sobre os contos, cronologia… Resumindo, preferi comprar quatro contos – dentre eles O Horla, famosíssimo, ressalte-se – e aguardar a oportunidade de comprar outros contos de Maupassant em edições mais bonitas, como esta.

Agora sim, os contos:

“O Horla” é um exercício refinadíssimo de estilo, uma aula sobre como fazer crescer o clima de tensão num conto e tornar crível o delírio/loucura do personagem. Escrito em forma de diário, acompanha um homem que acredita que um ser invisível acompanha seus passos, bebe sua água, e vigia seu sono. Ele ideia obseda-o e ele passa a tramar um jeito de livrar-se desse seu indesejado companheiro.

“A Cabeleira” é um conto mais ousado, permeando o erotismo, e adentra completamente no universo da loucura. Um homem que… Não dá para contar. São muito curtos. O mesmo digo em relação a “A Mão”, mais voltado para o terror/mistério e a “O Colar”, este cujo enredo mereceu inúmeras citações em filmes, séries, desenhos animados (não lembro exatamente de nenhuma dessas citações, mas leiam o conto e entenderá o que digo).

O que ficou da minha leitura é que Guy de Maupassant tem um estilo que muito me apetece. Gostei de todas as suas histórias e agora anseio ainda mais pelo encontro com Bola de Sebo e seu drama.

Em tempo: a Editora Artes e Ofícios havia prometido publicar Bola de Sebo nesse mesmo formato e até agora não o fez. Que pena!