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Mai24

Elsa Filipe

Fernando Pessoa, um dos maiores poetas portugueses, viu o livro "Mensagem" ser o único livro em português publicado ainda em vida, em 1934. Este pequeno livro de poemas foi até contemplado no mesmo ano com o "Prémio Antero de Quental", na categoria de «poema ou poesia solta», do Secretariado Nacional de Informação. Esta é uma obra lírica que se interliga em vários aspetos com a obra "Os Lusíadas" de Luís de Camões, escrito cerca de 400 anos antes.

Este livro está dividido em três partes - "Brasão", "Mar Português" e "O Encoberto" - e é composto por um total de 44 poemas, onde se contam séculos de história e onde o passado é contemplado de forma saudosista.

Em: "Brasão" são dadas informações sobre a formação da nacionalidade, heróis lendários e históricos.

Já em "Mar Português" são referidas as descobertas de um povo heróico e aventureiro que pelo mar vai à conquista do império. Um povo que mostra ter uma ânsia pelo desconhecido e que demonstra uma grande coragem, no seu esforço heróico da luta contra o mar.

Na última parte, "O Encoberto" é referida a morte do império de Portugal, simbolizada pelo nevoeiro e onde é notória a afirmação do Sebastianismo. Portugal é visto como um país estagnado à espera do ressurgir.

Fernando Pessoa destaca os heróis como Ulisses, Viriato, ou o Infante D. Henrique.

"Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Dá também um papel de destaque aos mitos, como por exemplo, no "Mostrengo", que podemos comparar ao "Adamastor" Camoniano.

"O Mostrengo:

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»"

O poeta destaca a grandiosidade de um povo que, apesar de "pequeno" foi o impulsionador de grandes "feitos." Isto é claramente visível em poemas como "Ascenção de Vasco da Gama" e " Mar Português."

"Mar português:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

A busca por uma "Índia nova" é aqui afirmada tal como nos "Lusíadas" de Camões, não como uma forma de conquistar um novo Império terreno, mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, a que chama "o Quinto Império."

"Grécia, Roma, Cristandade,

Europa - os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?"

D. Sebastião está de facto presente em vários dos poemas que compõem a "Mensagem", como o "Encoberto" ou "Nevoeiro".

"Nevoeiro:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!"

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/fernando-pessoa-mar-portugues/

https://ensina.rtp.pt/artigo/nevoeiro-de-fernando-pessoa/

https://ensina.rtp.pt/artigo/fernando-pessoa-o-mostrengo/