Por José Eduardo Ribeiro Nascimento
O Brasil tem uma das maiores diversidades étnicas do mundo. Fomos influenciados culturalmente por indígenas, americanos, europeus, africanos, asiáticos, etc. Tal diversidade marcou ricamente a história artística brasileira, de forma a apresentarmos grandes artistas desde o barroco até os tempos pós-modernos atuais.
Uma das maiores riquezas culturais do Brasil são as igrejas coloniais, principalmente nos estados da Bahia, Pernambuco e Minas Gerais, onde grandes nomes como Mestre Ataíde e Aleijadinho deixaram para todos nós obras de incalculável valor artístico, como é o caso das Estações da Via Sacra e os 12 profetas, no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, de Aleijadinho; e Nossa Senhora cercada de Anjos músicos, de Mestre Ataíde.



Mas a produção artística brasileira só veio a ter um crescimento considerável no séc. XIX, com a fundação da Escola de Belas Artes, onde foi criado um núcleo de estudos que formaria vários artistas que figurariam entre os grandes pintores brasileiros de todos os tempos, tais como Victor Meirelles e Pedro Américo.
Muitas das grandes obras e artistas brasileiros nasceram com o advento do Modernismo e a Semana da Arte Moderna Brasileira. Nomes como Anita Malfatti, Mario de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, conhecidos como o grupo dos cinco, além de Portinari e Di Cavalcanti. A partir daí a arte no Brasil disparou, não apenas na pintura, mas na escultura, literatura, e em outras áreas tais como a arquitetura, com Oscar Niemeyer (Brasília é o único complexo urbano reconhecido como patrimônio da Unesco no mundo), e Burle Marx (conhecido no mundo todo como grande arquiteto-paisagista).
Sou um grande admirador da arte, em especial da pintura, não apenas pela beleza estética perceptível pelos olhos, mas pelo grande diferencial dos grandes artistas que é a capacidade de se utilizar das três cores básicas para passar emoções que transcendem a tela. Farei um breve relato dos artistas brasileiros pelos quais mais tenho apreço. Não será em momento algum uma análise universal e definitiva, mas apenas a opinião de um admirador, que inclusive é incapaz de decretar ordem de superioridade entre um artista e outro, de forma que a ordem apresentada é meramente organizada por conveniência. Friso também que não sou estudioso de arte, assim, as análises são sentimentos meus, e talvez as obras não tenham o objetivo que eu descrevo.
Victor Meirelles (1832-1903) foi um brasileiro filho de imigrantes portugueses, que já aos 14 anos teve sua primeira obra reconhecida pelo diretor da Academia Imperial de Belas Artes, Félix Taunay, tendo este custeado seus estudos de arte no Rio de Janeiro. Aos 20 anos ganhou o prêmio de Viagem a Europa com a pintura São João Batista no Cárcere.
Com obras como Moema e A primeira missa no Brasil, Meirelles foi um dos pioneiros em mostrar a cultura brasileira na Europa, com índios e temas genuinamente brasileiros, numa época em que a criação artística do Brasil era muito pobre. Esse pioneirismo rendeu a ele críticas amargas, como “imaginação demais” referindo-se à Primeira Missa. Mas, para mim, as mais belas obras dele são a Batalha dos Guararapes e Combate Naval de Riachuelo. Aqui suas pinturas evocam completamente meu gosto pessoal. Em a Batalha dos Guararapes, como bem disse a crítica, não existe violência, morte ou desgraça. Há sim muita graça, composição e alegria, como se os grandes guerreiros épicos estivessem se reunindo para um grande encontro. Todos parecem estar bem, todos os movimentos são bonitos e bem articulados. A riqueza em detalhes nos faz imaginar que estamos no meio daquele movimento.
Em Combate Naval de Riachuelo, a mesma cena se repete: não estamos em um campo de destruição e fome; há certa alegria no ar, como o de uma vitória que chegou em um momento propício. A riqueza dos elementos, a fumaça que sobe, os barcos danificados, não nos dão a sensação de uma batalha sangrenta, mas de uma guerra desejada e alcançada, que ocorreu como planejado. É épico, é fantástico.
Tarsila do Amaral (1886-1973), juntamente com outros artistas, originou o movimento antropofágico, com uma de suas mais famosas pinturas “Abaporu”, que significa “homem que come carne humana”. Nascida em berço de ouro, Tarsila era filha de um grande fazendeiro. Estudou nos melhores colégios e se formou na Europa, onde ganhou diversos concursos de ortografia. Casou-se e separou-se pouco tempo depois, por causa da aversão do marido a sua evolução artística. Estudou arte na França, Espanha e Portugal, conhecendo Picasso, inclusive. Estudou Cubismo, Dadaísmo e futurismo, e aprendeu várias técnicas que conservou até suas últimas obras. De volta ao Brasil, teve uma fase de re-descoberta do Brasil, e começou a pintar motivos brasileiros, sendo que suas pinturas mais conhecidas foram pintadas nessa época.
Em questão de identificação, eu aprecio muito o estilo de Tarsila. Suas pinturas são leves. Não carregam um grande peso de detalhes, nem tentam retratar a realidade de forma exata. As pinturas dela, muitas vezes caricatas, nos remetem a uma lembrança no passado, um sonho. Ela não procurava fotografar seus pensamentos, ela se preocupava com a harmonia das cores, tons perfeitos. Traços simples para que o espectador lembrasse de alguém ou de um lugar conhecido. O “Manifesto Antropofágico” de Oswaldo de Andrade deu origem ao movimento de mesmo nome, e tinha como objetivo a digestão, por isso o termo antropofagia, que significa o ato de comer em parte ou em totalidade um ser humano – referindo-se às culturas norte-americanas, africanas e européias no Brasil, de forma que essas fossem utilizadas como referências e não copiadas. Pregavam um movimento de promoção da arte e cultura brasileiras.
Depois de Abaporu, Tarsila criou várias outras obras belíssimas. Minhas preferidas são Cartão Postal, A Cuca, Família e Pátio com Coração de Jesus.
Em Cartão Postal e A Cuca, Tarsila descreve cenas cotidianas. Nas matas, na vida do interior. Vejam como as árvores têm folhas em formas de coração, todas as folhas, as plantas os animais foram desenhados a partir de formas iguais. Essas pinturas provêm de técnicas pós-cubistas aprendidas em sua estadia na Europa. O verde é dominante, mas é sobrepujado pelo dourado da cuca e do macaco na árvore, enquanto os outros elementos foram pintados com cores leves. É suave e muito belo.
Já na composição Família, todas as cores são leves, monótonas e repetitivas. O chefe da família veste a mesma roupa dos animais. A criança do lado direito, sem camisa, parece um macaco, o rabo do cachorro parece ter outro dono. O menino em baixo come bananas, a mãe amamenta, a avó fuma cachimbo. As senhoras da família vestem rosa. As moças, com o sentido distante, como se imaginando a hora de casar, vestem azul. Os meninos de branco não tem muita personalidade no rosto. A menina brinca com a boneca, mas não queria estar ali. A composição é muito linda. As cores, como são características de Tarsila, são muito bem utilizadas.
Candido Portinari (1903-1962) nasceu em Brodowski, interior de São Paulo. Veio de uma família humilde com 12 irmãos, aos nove arrumou seu primeiro emprego ajudando artistas italianos que restauravam a igreja. Ganhou viagem de dois anos pela Europa, onde visitou França, Itália, Inglaterra e Espanha. Morreu por contaminação de chumbo, presente nas tintas. Portinari foi o artista brasileiro com maior repercussão mundial. Seus quadros, carregados com um teor surrealista/cubista, não desfazem sua personalidade modernista.
Dois dos seus quadros mais famosos são Retirantes e Criança Morta, os quadros mais tristes que conheço. São depressivos, e emocionam contando uma história de pobreza e desesperança. As crianças têm o rosto distorcido pela fome, olham seus familiares como um espelho. A criança morta é o primeiro, mas não o último da família a sofrer esta sentença.
Outros dois quadros famosos do autor são O Lavrador de Café e A Primeira Missa no Brasil.O primeiro segue um padrão caricato e genérico para o trabalhador braçal, pernas curtas, braços longos, mãos e pés grandes. Um olhar para o sol se pondo, na esperança do dia acabar logo, já que as lavouras são infinitas. As cores frias dão uma sensação de tristeza, apesar de que as feições do homem não deixam transparecer muito bem.
Já em A Primeira Missa no Brasil, as influências cubistas são mais evidentes. Os ângulos são muito valorizados, tudo é criado a partir de quadros, inclusive a luz do sol que se põe. Ao contrário do quadro de Victor Meirelles, floreado e épico, com índios por toda parte, no quadro de Portinari não se vê índios. É um belo quadro, todas as cores são bem compostas.
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Este breve relato não foi feito com a pretensão de criar adoradores da pintura; tive como único objetivo mostrar o quanto o Brasil tem a oferecer neste ramo da arte. De todas as formas de arte, talvez seja a pintura aquela que mais carrega a criatividade e a personalidade do artista. Depois da semana da arte moderna, e dos grandes pioneiros da revolução cultural, houve um grande crescimento no sentimento pátrio-artístico brasileiro. Quanto mais se passou o tempo, mais amor por seu país foi sendo mostrado, tanto na tela, quanto na música, poesia, romances, etc. Este foi um dos períodos mais críticos da história brasileira, e todos nós temos muito a aprender com os artistas brasileiros, que com certeza devem figurar entre os melhores do mundo.












