A história americana do Trump se repetiu em 2018 aqui no Brasil com Bolsonaro e a história americana de Biden pode se repetir aqui no Brasil em 2022 Isabella Marzolla*, colaboração para Fina Antes de mais nada, bom não deixar alguns números esquecidos: 2.349 mortes por Covid-19, na quarta-feira (10). A maior perda de vidas por Coronavírus desde quando a OMS decretou pandemia, há pouco mais de um ano, no dia 11 de março de 2020. Começar a coluna assim é desalentador, mas desde que Lula teve suas condenações anuladas pelo ministro do Supremo, Edison Fachin, por incompetência da 13ª Vara de Curitiba (PR) para julgar os processos e pelo, na época, Juiz Sergio Moro — ao que tudo indica — estar em suspeição, alguns jornalistas da grande impressa ressaltaram a necessidade de o debate público não girar em torno de Lula ou de sua disputa com Bolsonaro, atenuando ou até anulando as notícias da pandemia. Então para não correr esse risco, abro a coluna com tristes dados. Mas infelizmente, tanto a grande imprensa quanto a maioria das pessoas sabem que esses e outros dados serão usados estrategicamente na corrida eleitoral do ano que vem. Algo semelhante aconteceu nos Estados Unidos em novembro do ano passado nas eleições presidenciais americanas, e possivelmente pode acontecer no Brasil em 2022. Os Estados Unidos viviam um cenário político similar ao nosso. Donald Trump foi um presidente eleito sob mesmo clima polarizante de Jair Bolsonaro, em uma onda conservadora e anti-establishment. No xadrez ideológico, os dois estão ambientados na extrema-direita com algumas bandeiras semelhantes, o nacionalismo e o tradicionalismo (e só para não deixar de fora: o moralismo é uma bandeira mais específica ao quadro político brasileiro, com anticorrupção e o lavajatismo). Trump e Bolsonaro também se serviram de estratégias idênticas para se elegerem: o americano é acusado de se aproveitar de big data, sobretudo via Cambridge Analytica, para traçar perfil do eleitorado, já seu homólogo brasileiro de disseminar fake news para o eleitorado. Na pandemia, Bolsonaro seguiu o exemplo catastrófico de Donald Trump. A gestão de ambos os governos teve como carro-chefe o negacionismo das orientações médicas: o não uso de máscara, o incentivo a aglomerações, breve o desprezo à doença e à ciência. Não à toa que os Estados Unidos e o Brasil foram os países que se saíram pior no combate à pandemia, com as maiores taxas de mortes e contaminações por coronavírus. Até pouco tempo, os Estados Unidos de Trump eram o epicentro da pandemia, agora já é o Brasil. Mas a tragédia pandêmica norte-americana se encaminha ao fim. No dia 20 de janeiro deste ano, o democrata centrista Joe Biden tomou posse na mais tradicional democracia do globo. O ritmo atual de vacinação nos EUA é de dois milhões de doses diárias e a partir de 1º de maio, prevê-se que americanos de qualquer idade poderão se vacinar. Além do avanço nas medidas sanitárias, Biden reforçou o suporte financeiro aprovando no congresso pacote de estímulos de US$ 1,9 trilhão — ou seja o equivalente ao produto interno bruto do Brasil —, para medidas de auxílio contra a crise causada pela pandemia. De acordo com Felipe Loureiro, professor de Relações Internacionais da USP e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa e Tecnologia de Estudos sobre os Estados Unidos, “Se essa eleição se tornar um “plebiscito”, como parece que será, da atuação do governo de Donald Trump durante a pandemia, a campanha de Joe Biden será enormemente favorecida. (…) Existe um paralelismo entre a atuação do Trump ao longo da crise sanitária com o governo Bolsonaro no Brasil, apesar de haver algumas diferenças importantes”. A história americana do Trump se repetiu em 2018 aqui no Brasil com Bolsonaro e a história americana de Biden pode se repetir aqui no Brasil em 2022. *É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão {os artigos de opinião não expressam, necessariamente, as posições da revista. Fica a cargo do autor responder por suas convicções)