Lendas Urbanas não passam de uma adaptação das lendas rurais, do mecanismo de invenção de histórias absurdas que há milênios funciona em regiões onde todos os contatos são face-a-face e toda a troca de informação é por via oral.
A Lenda Urbana é um folclore adaptado, um mecanismo que se transplanta do campo para a cidade, confortavelmente instalado nos neurônios de gerações de migrantes.
Na cidade os temas são outros, os ambientes, os personagens; mas a mecânica de criação de história é a mesma. “Mutatis mutandis”.
Isto não quer dizer que o meio urbano não interfira no mecanismo.
Uma das minhas Lendas Urbanas favoritas é a história dos bombeiros que estão apagando um incêndio florestal numa montanha e encontram ali o cadáver semi-carbonizado de um mergulhador, com óculos, pés-de-pato e tanque de oxigênio.
A explicação: os helicópteros de combate ao fogo iam até o litoral e desciam até o mar uma caçamba metálica, que enchiam de água para despejar no incêndio. Uma dessas caçambas “engoliu” o mergulhador e veio despejá-lo no fogaréu.
O que há de fascinante nessa Lenda Urbana é aquilo que os surrealistas chamavam de “dépaysement”, deslocamento, junção inesperada de duas coisas distantes, ou a colocação súbita de um elemento num ambiente totalmente distante dele.
Encontrar um mergulhador carbonizado numa floresta de montanha é como a famosa cena visualizada por Lautréamont, “o encontro de um guarda-chuva e uma máquina de costura em cima de uma mesa de dissecação”.
O alto grau de improbabilidade da cena parece conspirar em favor de nossa crença. É como se disséssemos; “Não, uma coisa tão fantástica não poderia ter ocorrido a uma mente humana! Somente a realidade pode produzir paradoxos desse tipo.”
E eu completaria: somente a realidade urbana, em que paradoxos desse tipo (só que em grau menor de excentricidade) podem ser observados todos os dias, desenvolvendo em nós uma sensibilidade especial para (e uma aceitação tácita de) tudo que é bizarro, incongruente, ou meramente exótico.
Simplificando muito uma realidade complexa, a gente pode dizer que o mundo rural é bem homogêneo em seu aspecto social e humano, e heterogêneo no que diz respeito à natureza, a eterna fonte de surpresas e de fatos extraordinários.
No mundo urbano, é o contrário – o ambiente da cidade, em si, é algo aparentemente sob controle, planejado, criado por urbanistas e engenheiros, e é na fauna humana e nas suas infinitas recombinações culturais que reside o laboratório das surpresas.
Segundo Jon Brunvand, pesquisador de lendas urbanas, muitas delas surgem da criatividade de um sujeito que vê algo acontecendo e pensa: “E se...?” E se esse helicóptero que estou vendo no “Jornal Hoje”, pegando água do mar, recolhesse um mergulhador?
A vida urbana, com seus bilhões de possibilidades combinatórias, nos dá o começo quase pronto de uma história bizarra. Basta apenas a gente inventar o final.
1784) Lendas Urbanas (27.11.2008)
lendas urbanas, folclore, sociologia urbana, narrativa, cultura popular
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo
