uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de dezembro de 2011
“Quem quis se alegrar com o mundo/ depara com uma tarefa/ de execução impossível (…) // Era para Deus finalmente crer no homem/ bom e forte/ mas bom e forte/ são ainda duas pessoas.// Como viver—me perguntou alguém numa carta/ a quem eu pretendia fazer/ a mesma pergunta.// De novo e como sempre…/ não há perguntas mais urgentes/ do que as perguntas ingênuas”.
(trechos de Ocaso do século, de Wislawa Szymborska)
A primeira coisa que chama a atenção em POEMAS é essa senhora na capa soltando uma satisfeita baforada, com seu cigarro, com uma expressão beatífica-iogue, com um toque solerte e matreiro. Uma capa que celebra—não sei se deliberada ou inconscientemente—a resistência ao patrulhamento e intolerância crescentes no mundo. Não sou fumante, e por isso posso falar tranqüilamente: acho um horror essa perseguição aos fumantes e a interferência do governo em lugares privados e comerciais. Ninguém é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas nunca verei o porquê de não haver “lugares para fumantes” e que eu possa ter o direito de estar neles com meus amigos que fumam, por minha conta e risco. Ninguém é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas somos obrigados a aturar tevês ligadas em bares e restaurantes, gente berrando, ou gente ouvindo música ruim a decibéis incríveis, gente que não tem a mínima noção de espaço pessoal. É esse o mundo higienizado, com a cara desanimada e nada saudável dos Dráuzios Varellas.Urgh!
Essa senhora fumante, polonesa, atualmente com 88 anos, foi a responsável por minhas mais intensas emoções literárias em 2011. Premiada com o Nobel em 1996, Wislawa Szymborska é muito mais do que um nome exótico e quase impronunciável (somos informados de que a pronúncia certa seria vissuáva chembórska, mas eu não abro mão do muito mais bonito vislava zimbórska, e aliás, nunca saberei polonês, e por isso pronuncio como quiser, é incrível essa mania do brasileiro de querer “falar certinho” o idioma e os nomes estrangeiros, atitude que não é retribuída pelos falantes de outras línguas: meu ilustre professor na pós-graduação, o francês Pierre Rivas não se vexava de pronunciar Macunáima ou mariô e ninguém levantava dúvidas sobre sua estatura intelectual), é autora de uma obra poética ímpar, como demonstra a magra e preciosa antologia – que abarca oito de seus livros— publicada pela Companhia das Letras, um feito memorável da tradutora Regina Przybycien (por falar em impronunciabilidade), também responsável pela seleção dos quarenta e quatro poemas.
Assim como Drummond e Bandeira, nos seus grandes momentos, Wislawa Szymborska se vale de uma requintada simplicidade para enlaçar o cotidiano a todos os temas primordiais e importantes: o tempo, a morte, a guerra, a comunicação entre as pessoas, a solidão, a desumanização crescente do mundo, o que é de fato a civilização…
“Não eram muitos os que passavam dos trinta/ A velhice era privilégio das pedras e das árvores/ A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos/ Era preciso se apressar, dar conta da vida/ antes que o sol se pusesse/ antes que a primeira neve caísse. // Meninas de treze anos gerando filhos/ meninos de quatro anos rastreando ninhos de pássaros na moita/ jovens de vinte servindo de guias nas caçadas/ ainda há pouco não existiam, já não existem (…)// De todo modo, não contavam os anos/ Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados / O tempo, tão generoso para qualquer estrela no céu / estendia-lhes a mão quase vazia/ e a retirava rápido, como se tivesse pena (…)// Não havia nem um instante a perder/ perguntas a postergar e iluminações tardias/ a não ser as que tivessem sido antes experimentadas/ A sabedoria não podia esperar os cabelos branco/ Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse/ e ouvir toda voz, antes que ela se propagasse // O bem e o mal/ deles sabiam pouco, porém tudo/ quando o mal triunfa, o bem se esconde/ quando o bem aparece, o mal fica de tocaia (…)/ Por isso, se há alegria é com um misto de aflição/ se há desespero, nunca é sem um fio de esperança/ A vida, mesmo se longa, sempre será curta/ Curta demais para se acrescentar algo.” (trechos de A curta vida dos nossos antepassados)
De Gente na ponte (1987), do qual foram selecionados doze poemas, diversos deles maravilhosos, já temos o tom wislawiano: “Foi descoberta uma nova estrela/ o que não significa que ficou mais claro/ nem que chegou algo que faltava (…) // A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela/ tudo isso quiçá seja suficiente/ para uma tese de doutorado/ e uma modesta taça de vinho/ nos círculos aproximados do céu/ o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas / ambiente informal, traje casual/ predominam na conversa os temas locais/ e mastiga-se amendoim (…)/ A estrela não tem conseqüência/ Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo/ na mudança de governo, na renda e na crise de valores // Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada / Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência/ Excedente em face dos dias contados da vida/ Pois o que há para perguntar / sob quantas estrelas um homem nasce/ e sob quantas logo em seguida morre // Nova / Ao menos me mostre onde ela está / Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada / e aquele galhinho de acácia mais à esquerda / Ah—exclamo.” (Excesso)
Essa face filosófica, com seu quê de pré-socrática, oculta brechas para uma ironia quase provocativa, não fosse tão maliciosamente suave e até mesmo serena, como em Opinião sobre a pornografia, que começa com versos antológicos: “Não há devassidão maior que o pensamento/ Essa diabrura prolifera como erva daninha/ num canteiro demarcado para margaridas”. E depois de considerar “simplório” o pornográfico anatômico, ela afirma: “É chocante em que posições/ com que escandalosa simplicidade; um intelecto emprenha o outro!/ Tais posições nem o kamasutra conhece”.
Que privilégio é ser emprenhado pelo intelecto lírico de Wislawa Szymborska. Enalteci Gente na ponte, mas há poemas admiráveis tirados de Muito divertido (como A alegria da escrita), de 1967; Um grande número (como O quarto do suicida[1] ou Utopia), de 1976; e Fim e Começo (1993), do qual cito versos iniciais do meu poema predileto entre todos, o lindíssimo e eloqüente Gato num apartamento vazio: “Morrer—isso não se faz a um gato/ Pois o que há de fazer um gato/ num apartamento vazio…/ Nada aqui aparece mudado/ e no entanto algo mudou…// Algo aqui não começa/ na hora costumeira/ Algo não acontece/ como deve/ Alguém esteve aqui e esteve/ e de repente desapareceu/ e teima em não aparecer//”.
Quem disse que não há mais poesia no mundo? Pelo menos na Polônia ela foi preservada, intacta e contundente. E muito divertida.
[1] “Vocês devem achar que o quarto estava vazio /Pois havia ali três cadeiras de encosto firme/ Uma boa lâmpada contra a escuridão / Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais / Um Buda alegre, um Jesus aflito/ Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho/ Você acha que nele não estavam nossos endereços? // Acham que faltavam livros, quadros ou discos? / Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras / Saskia com uma flor cordial/ Alegria, centelha divina/ Na estante Ulisses num sono reparador / depois dos esforços do Canto Cinco / Os moralistas / seus nomes inscritos em letras douradas / nas lindas lombadas de couro/ Ao lado, também os políticos perfilados // Não parecia que o quarto fosse/ sem saída, pelo menos pela porta/ nem sem vista, pelo menos pela janela/ Os óculos para longe largados no parapeito/ Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva// Devem achar que ao menos a carta explicasse algo / E se eu lhes disser que não havia carta / éramos tantos os amigos e coubemos todos / no envelope vazio apoiado no lado do corpo.”






