05
Fev21
Maria do Rosário Pedreira
Este saiu excepcionalmente longo (não vou repetir este tamanho) mas é só porque a história merece. Boa leitura.
Depois da conversa sobre os gira-discos e os seus diferentes méritos, o senhor Jo pediu a Suzanne que lhe abrisse a porta da casa de banho para poder vê-la toda nua, a troco do que lhe prometeu o último modelo de La Voix de Son Maître e discos ainda por cima, as últimas novidades de Paris. De facto, enquanto Suzanne tomava duche, bateu discretamente à porta da casa de banho.
– Abra – disse o senhor Jo muito baixinho. – Não lhe toco, não me mexerei, vou só olhar para si, abra.
Suzanne imobilizou-se e fitou a porta da casa de banho mergulhada na penumbra e por trás da qual estava o senhor Jo. Ainda nenhum homem a tinha visto completamente nua, salvo Joseph, que às vezes entrava para lavar os pés quando ela estava a tomar banho. Mas, como isso nunca deixara de acontecer desde crianças pequenas, não contava. […]
– É só o tempo de a ver – suspirou o senhor Jo. – Joseph e a sua mãe estão do outro lado. Suplico-lhe.
– Não quero – respondeu debilmente Suzanne.
[…] A recusa tinha-lhe saído maquinalmente. Tinha sido Não. Imediatamente, não imperiosamente. Mas o senhor Jo continuava a suplicar, enquanto esse não se invertia lentamente e Suzanne, inerte, emparedada, se deixava convencer. Ele ardia de desejo de a ver. […] E o que ali estava não fora feito para ser escondido mas, pelo contrário, para ser visto e fazer o seu caminho através do mundo, o mundo a que pertencia, apesar de tudo, aquele ali, aquele senhor Jo. Mas foi só quando estava quase a abrir a porta da sala escura para que o olhar do senhor Jo penetrasse e a luz enfim se fizesse sobre este mistério que ele falou do gira-discos.
– Amanhã terá o seu gira-discos – disse. – Amanhã mesmo. Um magnífico La Voix de Son Maître. Minha Suzanne querida, abra por um segundo e terá o seu gira-discos.
Foi assim que, no momento em que ia abrir e dar a ver-se ao mundo, o mundo a prostituiu. Já com a mão no fecho da porta, suspendeu o gesto.
Marguerite Duras, Uma Barragem contra o Pacífico, trad. Carlos Leite