Fotografia da minha autoria

«Uma rapariga só em fria e claustrofóbica suite de hotel»

Avisos de Conteúdo: Saúde Mental, Suicídio

A iniciativa Livraria às Cegas fascinou-me desde o primeiro contacto com a descrição do conceito, porque acho interessante a possibilidade de, sem saber o que me espera, sair da minha zona de conforto literária. Assim, expectante com a seleção da Distopia Livraria, fiquei a conhecer uma obra poética de Inês Fonseca Santos.

VERSOS DE PARADOXO

Suite Sem Vista está dividido em 14 poemas, que nos fazem deambular por terreno bastante incerto. Porque tanto nos transmitem as angústias e as dores de terceiros, como nos acalentam uma dose de esperança.

«desejo terno de uma fenda

para o exterior»

Este livro lê-se num sopro. No entanto, parece uma bomba-relógio prestes a explodir, pelo simples facto de nos fazer acompanhar uma protagonista a um passo da tragédia. Portanto, é nesta viagem intimista que compreendemos o paradoxo explorado através daquilo que é privado e do que é público; daquilo que os outros veem e do que nós sentimos. E, quase como se levitássemos numa atmosfera cósmica, desenraizamo-nos de nós para sentirmos o quanto é ténue o limite do que alcançamos e da privacidade do que nos bate no peito.

«Dia após dia a rapariga escavava

um túnel para fora de si: a colher»

O espaço físico assume todas as fronteiras, relegando-nos para um conflito interior constante, atendendo a que nos debatemos com a solidão e as lembranças que tornam tudo tão presente, a um palmo de nós. Assim, nesta travessia emocional, o outro continua próximo, ainda que nós permaneçamos tão longe - ou só ausentes.

UM AUTÊNTICO ENIGMA

A protagonista é intrigante e perigosa para si, por isso, sentimos-lhe os medos, a angustia e as dores. Na tentativa de entendermos a sua jornada, deixamo-nos levar pela subtileza dos seus pensamentos vertiginosos.

«Na porte da suite sem vista, a rapariga

pendurou o sinal

não incomodar

e acrescentou

nunca mais»

Oscilando entre a fuga e o resgate, Suite Sem Vista encaminha-nos em direção ao abismo, mas sem que as vontades sejam explícitas. Mas talvez não seja necessário, porque as entrelinhas gritam o seu desfecho.

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