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| Fotografia da minha autoria |
«A narração acontece em torno do não contado»
Avisos de Conteúdo: Morte, Abandono, Doença, Linguagem Explícita
A omissão é um terreno ardiloso, mesmo quando o preparamos com cuidado, porque nos esconde numa bolha de proteção ilusória. No fundo, não nos prepara para lidar com as situações, apenas adia o contacto, podendo ser mais sérias as repercussões. E nós vamos percebendo isso mesmo no livro de Rute Simões Ribeiro.
ETERNIDADE VS FINITUDE
A Breve História da Menina Eterna permite-nos descobrir a menina M, uma criança inocente, curiosa, com a particularidade de não conhecer a morte, porque lhe foi ocultada: talvez para ser poupada ao sofrimento, talvez porque, embora seja algo natural (mas não menos custoso por isso, é certo), continuamos a não saber como abordá-la. Apesar dos motivos, persiste um hábito: evitar envolver as crianças em assuntos complexos.
«Na ausência de realidade que lhe bastasse, decidiria fazer de conta»
Por um lado, creio que essa postura demonstra o quanto diminuímos a maturidade dos mais novos, quando lhes deveríamos disponibilizar mecanismos que os ajudassem a gerir a perda, a dor, a ausência, adaptando sempre o discurso à faixa etária e ao nível de entendimento. Por outro, parece-me que, deste modo, vão preservando a sua pureza, vivendo de uma forma mais livre, descomplicada e com medos equilibrados. Assim, fica claro que há uma forte influência cultural, que repete padrões e que nos orienta numa narrativa quase transversal. Neste contexto, ao não saber o que é a morte, M viveu a construir uma noção de eternidade.
«E se nada estiver à nossa espera?»
É uma visão falaciosa e, por isso, vamos compreendendo o impacto da sua desconstrução e os sentimentos que surgem, quando a utopia se quebra. Gostei de encontrar um narrador que conversa connosco e que nos vai lançado alguns avisos, porque sinto que aumentou o mistério e a maneira como me envolvi na narrativa. Não obstante, num momento inicial, a estrutura da narração pode parecer um pouco estranha, mas o lirismo da escrita, o tom filosófico/reflexivo e a honestidade das suas palavras fazem-nos ultrapassar qualquer barreira.
«A morte será a falta de ti, o silêncio que virá depois, o sítio onde não te
chegarei mais, será este vazio cheio, esta saudade sem cura»
Nesta obra, a autora convida-nos a pensar sobre finitude, sobre o modo como observamos o mundo e sobre a ingenuidade que nos habita. Dentro de um ambiente de quimera, que nos inquieta pelo que não é dito, A Breve História da Menina Eterna transborda de poesia e de simbolismo, porque estas páginas leem-se num sopro, mas ficam. Além disso, é impressionante como vemos a M a florescer - e como nós renascemos com ela.
🎧 Música para acompanhar: Menina, Márcia & Samuel Uria
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