Saudades do Gemidão
comportamento social, cultura da internet, humor, viralização
Matheus Lopes Quirino Há pouco tempo, o famoso Gemidão era o que realmente assombrava a nação. Até rima; talvez soe engraçado, mas nada mais aleatório do que abrir o temível Gemidão, do nada, em qualquer lugar de absoluto silêncio. Constrangedor era pouco para classificar o sentimento que borbulhava das entranhas do cidadão presenteado com os grunhidos em alto e bom tom. Bom, sim senhores, afinal, o duto cacofônico do prazer era emanado daquela "guela", em êxtase, como o último suspiro ou gozo do mundo. Poético até o Gemidão, ficou mais famoso que sinfonia de Alemão. Outra rima, droga. E aos desavisados, de antemão como um fado, para explicar o gemidão é simples, passo o bastão para um amigo que resolveu investigar o assunto à fundo -- seja como for. Entendido do assunto mulher, foi ele atrás da dona dos sussurros numa busca incessante por um arquivo vasto de sonoridades libidinosas. Vasculhou os sites especializados do ramo ate achar o nome da dita. Falha-me a memória, graças a Village People, que não vem à mente a cara da suplicante locutora a atazanar lares patrióticos.A bala de prata do Gemidão era jogar um banho de água fria no mais sério dos homens. Todos caíram: executivos em meio a reuniões, tiozinhos na fila da lotérica que não sabiam silenciar o celular, empacotadores de supermercado, padres e pastores que, por engano, escorregaram na sonoplastia do diabo. Mas aos céus foram aqueles que, pelo Gemidão, livraram-se de bronca ou bordoada. Em tempo, nos ônibus; ruas, igrejas, escolas, salões de beleza: todos alerta, ágeis, para sacar de onde vinha o disparo da vez…Gemidão, a instituição nacional que funcionava. Bastava a sirene Gemidônica soar (aaaahhhhhh, aeeeeeeh, uuuuueeeeehhhh) para as bolsas despencarem, assim como os penduricalhos políticos e a pipa do vovô. Como uma bola de boliche a derrubar todos os pinos, num strike certeiro, o fantasma do Gemidão não apenas foi enterrado, como, levando consigo a inocência, cedeu lugar a outros e temíveis problemas. Esses temíveis mesmo. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina