Ilustração do centro de São Paulo do livro de Luli Penna

Autora usa referências da música popular com detalhes verossímeis na cultura e na arquitetura do início do século passado para abordar frenesi amoroso

Matheus Lopes Quirino

Atravessamos a linha férrea a caminho da Luz. Na estação centenária de São Paulo, no começo do século passado, somos lançados a um mundo idílico, carinhosamente datado que é apresentado por recortes guardados em uma caixa garbosa. Das propagandas dos Lenços Presidente à embalagem do remédio para sífilis, é possível aos pouco reconstruir este pequeno mundo antigo a partir do itinerário de Sebastião até seu encontro com Lola.


Ela que fez parte de uma geração de ilustradores de revistas femininas e suplementos em jornais, Luli Penna, que nasceu em meados da década de 1960, não viveu nesta São Paulo idílica, no entanto seus trabalhos gráficos são marcados por excursões aos tempos passados, sobretudo nas revistas femininas e suplementos em jornais que ela que fez parte na primeira leva de ilustradoras femininas; durante a carreira, Penna também publicou na Folha de S.Paulo, mas nunca havia reunido o trabalho, até agora.

Sem Dó é sua primeira novela gráfica, e dá ao leitor uma amostra digna do trabalho da ilustradora. A história segue um fio narrativo aparentemente banal, mas que contado a partir de seu traço detalhista ganha outros contornos. É possível respirar o ar dessa São Paulo fabril, onde se sabia de tudo pelo rádio ou pelas edições matutinas, vespertinas e noturnas dos jornais.

Lola, a protagonista, recebe um punhado de revistas de seu patrão, que mira um olhar interesseiro nela. Esquiva, tanto ao gentil burguês quanto ao primo que está prometida, ela tromba por acaso em uma esquina de São Paulo com o recém-chegado Sebastião. A troca de palavras é simples, o flerte, inocente, de uma promessa, eles vão a um cinema instalado no Teatro Municipal, passeiam pelo parque da luz, vão se envolvendo intimamente com uma certa calmaria repleta de expectativa.

Ela se entrega ao homem que a tirou do eixo casa-trabalho-filha-empregada. Promete aventuras nada sofisticadas que, a seus olhos, são deleites. Lola está apaixonada, mas Sebastião tem questões pendentes. As armas do amor podem ser simples em confecção, mas no enlace, independente do campo de batalha e contexto, quem se abala é o coração.
No livro, essa expectativa ganha forma através dos bilhetes de cinema, das fotografias, dos olhares de canto. A história não peca pela simplicidade, é ela um trunfo.

Um fragmento. A reviravolta é inevitável e, mesmo sem reviravoltas rocambolescas, espera-se um final feliz. Da inocência, do amor, do cortejo. Tudo cai por terra. O amor é o mesmo, é indiferente a contextos, sexos, classes sociais. Ele pega, esfrega, nega, mas não larga. São as letras de música que vão ambientando o leitor nas micro-histórias da novela. Letras como Baby, celebrizada na voz de Gal Costa, a boletins jornalísticos escutados de um rádio antigo.


Fotografias, pequenos objetos como fotos analógicas, bordados, recortes de jornais e revistas vão abrindo a história do desencontro do casal. A torcida é inevitável, já que a protagonista se desvirtua do conforto do lar e do trabalho para se jogar aos braços do desconhecido. E é assim mesmo o amor. Ela guarda todos os fragmentos desse com esmero na caixa garbosa, embora, impetuosa, cisme em dar um basta. Enrola pais, patrões, mas o amor também demanda e às vezes se paga caro.


Lola é uma jovem idealista que flerta através dos vidros da janela do quarto com Sebastião. Ela não se esquiva do homem em frente à loja de fotografias artísticas, e não se intimida a ponto de tomar o mesmo bonde, sentar no mesmo cinema e sentir o corpo marcado daquele que, como chega, tira o chapéu, não sem antes escrever, se justificar, dar sinal de vida. Mas mesmo antigamente, cartas e mensageiros se perdem pelos caminhos. No amor não existe exclusividade nas agruras, o bilhete não chega a suas mãos a tempo. Sebastião volta? Lola abre os olhos? O trem chega na estação. É a vida nesse vaivém, é a vida. Tem gente que chega pra chorar, tem que gente que vai pra nunca mais. E assim é chegar ou partir, são só dois lados da mesma viagem

TÍTULO: SEM DÓ

AUTOR: Luli Penna

EDITORA: Todavia

ANO: 2017

Avatar de Desconhecido

Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino