Bizarra é a única palavra que me ocorre para descrever a história de Jean-Claude Romand. Para vos situar, esta história passou-se em França nos anos 90.
Jean-Claude tinha tido uma infância e adolescência relativamente normais. Quando chegou ao terceiro ano do curso de medicina, Romand decidiu não ir aos exames. Poderia ter repetido o ano. Poderia ter desistido e mudado de curso. Poderia ter feito muita coisa, mas Romand optou por mentir e fingir que continuava a tirar medicina. Quando o “concluiu” (coisa que nunca aconteceu) fingiu ser médico e ter arranjado um emprego na Organização Mundial de Saúde na Suíça.
Casou-se e teve dois filhos. Todos os dias, mas todos os dias, Jean-Claude saia de casa de manhã para ir para o “emprego”. Dava passeios pela floresta, visitava a sede e a biblioteca da OMS ou ficava fechado no carro a ler livros. À noite, voltava para casa depois de um dia “de trabalho”.
Como os pais tinham dinheiro, não estranhavam as constantes transferências de Romand para a sua própria conta. Sendo alguém com um "emprego" importante na OMS na Suíça, amigos e família não estranhava quando se oferecia para depositar o seu dinheiro em bancos suíços. Ganhariam muito mais dinheiro assim, dizia ele, enquanto gastava todo o dinheiro que lhe confiavam.
Durante dez anos, ninguém questionou. Ninguém suspeitou de nada.
Quando, finalmente, Romand achou que a sua vida dupla estava prestes a ser desmascarada podia ter, finalmente, contado a verdade. Que nunca acabara o curso de medicina. Que não era médico. Que nunca tinha trabalhado na OMS. Que nunca tinha depositado o dinheiro dos outros com o objetivo de dar lucros, mas sim para o poder gastar e continuar a sua vida dupla.
No entanto, Romand não fez nada disso.
A 9 de Janeiro de 1993, matou a tiro a mulher, os dois filhos e os pais. Como se não bastasse, ainda decide matar o cão dos pais. Mais tarde, encena um incêndio na casa que partilhava com a mulher e os filhos, do qual sai vivo.
À semelhança de Truman Capote em «A sangue frio», o autor de «O adversário» procurou compreender esta história do ponto de vista do assassino. Começou a trocar cartas com Romand, antes, durante e depois do julgamento.
Apesar de condenado a prisão perpétua, Romand saiu em liberdade em 2022, recebe uma reforma e está proibido pelo tribunal de contactar os media ou as famílias das vítimas.
Um livro duro e inquietante.
