João Matos 

Crédito da imagem: Johan Barrios, https://www.instagram.com/johanbarrios/

Felipe Charbel, em texto intitulado O ensaísta aposentado, propõe uma reflexão a respeito dos mitos de fundação do romance e do ensaio. Para o autor, enquanto o romance estaria ligado ao trabalho duro, a uma produtividade capitalista, o ensaio pode ser associado ao ócio, sobretudo ao se observar o modo como viveu Montaigne, precursor do gênero.

A proposição de Charbel é motivada por seu interesse em investigar o que o autor chama de “atitude ensaística”, que seria um de modo de catalogar o cotidiano em parcos registros “sem uma finalidade imediata ou propósito claro”, tal como o escritor do ensaio tende a praticar.

As colocações de Charbel são valiosas para mim, principalmente ao pensar na aproximação da escrita ensaística com a escrita de si, percebida em publicações recentes da literatura brasileira, como O que é meu, de José Henrique Bortoluci, e John, de Júlia de Souza – que pretendo comentar mais detidamente a seguir. 

Em John, publicado em 2023, Júlia de Souza tenta reconstruir a memória e a figura de seu pai, que foi acometido pelo mal de Alzheimer antes de falecer. Esse processo, no entanto, não assume um caráter objetivo para lidar com uma configuração de identidade perdida – demonstra, ao contrário, a marca de subjetividade da autora no gesto de revisitar sua própria memória em busca da memória de seu pai: 

“cada linha escrita é também o apagamento de outra rememoração possível, de outro viés ou versão do resgate e comentário do passado. Escrever essas memórias também pode ser condená-las a uma rigidez (no registro literário, no meu registro mnemônico).” 

É possível ler nesse e em outros momentos do livro – como na lembrança da autora sobre o rigor do pai no uso da língua, pautado pela gramática – a atitude ensaística tal como delineada por Charbel, pois a recomposição da figura do pai é marcada pela inexatidão do relato memorial e pelo “infraordinário”capturado pelas anotações da filha sobre aquela vida.  Tematizando a escrita de si na época clássica, Michel Foucault a caracteriza como uma ascese que inaugura uma forma preocupada com a busca da verdade interior como prática textual. A atitude ensaística cunhada por Charbel, contudo, parece contrariar esse valor fundamental, levando o sujeito que se escreve, como no caso de Souza, a suspeitar de si mesmo e da possibilidade de estabelecer uma verdade memorial. 

Minha inquietação talvez seja um desdobramento sobre as reflexões que venho empreendendo sobre um dos principais fenômenos deste tempo: a contestação (ou negação) do valor absoluto da verdade. Sem essa baliza, o real e o imaginado parecem estar em constante disputa, demonstrando as inúmeras possibilidades que a escrita de si, ficcional ou não, podem assumir no contemporâneo.