Depois de termos homenageado a cidade de Londres na voz de Mário Cesariny e de  manuel a. domingos, decidimos repetir a receita, desta vez com dois poemas sobre Paris. O primeiro poema é de António Gedeão, célebre poeta português, autor de poemas como Pedra Filosofal ou Lágrima de Preta. O segundo é de Uberto Stabile, poeta e editor espanhol, natural de Valência, director da cultura do ayuntamiento de Punta Umbría (Huelva). Em Portugal, a livrododia  editora lançou uma antologia do autor com o título Só Mais uma Vez, livro que integra a colecção Palavra Ibérica.

Poema numa esquina de Paris

Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.

Umas para lá.

Outras para cá.

Umas para cá.

Outras para lá.

Mas cada uma que passa

tem de fazer na esquina um pequeno rodeio

para não se esbarrar com o par que aí se abraça.

Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,

tentam matar a inesgotável sede.

Através dos seus corpos transparentes

lê-se na esquina da parede:

DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ

MAURICE DUPRÉ

HÉROS DE LA RESISTANCE.

VIVE LA FRANCE.

(António Gedeão)

Isto não é Paris

Isto não é Paris

nem são cinco da tarde

nem chove

nem há cómicos na rua

e tampouco nesta esquina

desta cidade que não é Paris

há um realejo surpreendido

e um pintor boémio

e uma garrafa de vinho

porque às cinco da tarde

esta cidade não é Paris

e não existe um amor curioso

escondido atrás da cortina

enquanto Edith Piaf canta

Les amants de Paris

Nem a recordação do Sena

me leva as minhas memórias tristes

desta cidade sem noite

nem espelhos de mel

e não minto se disser

que Paul Éluard saiu do meu quarto

com asas de melro branco

pela janela desta cidade

que não tem pombas nem bêbados alegres

porque às cinco da tarde

esta cidade não é Paris.

(Uberto Stabile)

tradução de Tiago Nené