Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Apesar de não haver nuvens no céu e o sol estar no zênite, naquele dia não era o calor – normalmente angustiante – que mais chamava a atenção de Lucas, mas o brilho, que se refletia alegre nas folhas do milho jovem, ainda à espera de mais chuva para que deixasse de ser promessa; também aparecia o reflexo nas jaqueiras, mangueiras e jabuticabeiras, distribuídas erraticamente nos pastos e nas roças de milho, feijão e abóbora.
Em sua bicicleta, o menino perdia-se contemplando aquelas paragens. Tinha certeza de que já passara do horário; àquela altura já estariam almoçando e quando chegasse ouviria mais um daqueles longos sermões da sua mãe. Mas férias, só uma vez por ano, pensou. Vale a pena. E colocou mais força nos pedais. Após uma pequena subida e uma curva à esquerda, a via estreitou-se ainda mais. De um lado, um verde e pequeno pasto com algumas cabeças de gado desfilando languidamente; do outro, os pés de milho formando oficiosas filas, dançando vivazes, hipnotizando o jovem ciclista.
Mais adiante, uma casa sem reboco e de portas abertas e um homem agachado, do lado de fora, mexendo na terra. Enquanto acelerava, Lucas acompanhava as ações daquele homem, que já levantara e rapidamente se afastava do local outrora ocupado. As pernas do menino colocavam ainda mais força a cada pedalada. O homem agora observava o buraco, de onde começava a sair fumaça. Lucas, curioso, não perdia um detalhe, e agora estava já bastante próximo da casa. Viu o homem levar as mãos aos ouvidos e eis que um grande clarão saiu daquele buraco, acompanhado de um estrondo monstruoso. O susto fez Lucas desviar um pouco a direção da bicicleta, o suficiente para que o pneu dianteiro batesse em uma raiz que invadia o caminho e, por conta da alta velocidade alcançada, desencadeasse uma série de pequenos acontecimentos que culminaram com Lucas estirado no chão, algumas lágrimas e escoriações para marcar seus últimos dias de férias.
O homem acudiu imediatamente o menino, levantou-o, perguntou se estava bem e obteve como resposta um “aham” meio envergonhado.
“Oxe, menino, cê vinha virado com essa geringonça!”. O homem sentia-se culpado pela queda do garoto e queria distraí-lo.
“O que aconteceu ali?”, perguntou Lucas.
O homem parou, observou o menino.
“Como cê chama? Cê é daqui não, né?”, desconversou.
“Lucas. Estou só passando as férias. Estou na casa da minha avó, Maria de João de Zito, conhece?”
“Se conheço? Minha finada mãe, que Deus a tenha, era afilhada da irmã da sua avó.”
E o homem abriu um largo sorriso, mostrando dentes meio amarelados. Só então Lucas reparou como ele era jovem. O chapéu de palha na cabeça, uma velha camisa estampada abotoada até a metade, a calça bege, os sapatos marrons ainda mais gastos vestiam um homem baixo e magro, com a pele escurecida pelo sol, as costas arqueadas, que passavam a impressão que ele só conhecera o trabalho no campo.
“E qual o seu nome, senhor?”
“Antonio José Silva Santos, mas todo mundo me chama de Toinho mesmo.”
“O que aconteceu ali, seu Antonio?”
Como uma compensação pelo acidente que provocara, o reservado Toinho resolveu mostrar algumas de suas faladas – mas nunca reveladas – invenções.
“Venha ver, menino. Faço umas coisas curiosas aqui em casa quando não tenho o que fazer.”
Naquele dia o menino descobriu que Toinho era um homem que sabia muitas coisas. Sabia fazer um remédio para machucado feito de ervas colhidas ali mesmo, no seu quintal, misturadas a um pouco de cachaça e alguns outros ingredientes que ele manteve em segredo. Sabia fazer aparelhos de rádio que funcionavam sem pilhas, apenas com restos de materiais, ferragens e uma porção de coisas que Lucas nem sabia o que era. Mas a especialidade de Toinho mesmo era fazer bombas como aquela que causara seu acidente. O mais interessante, todavia, não era a bomba em si, mas o jeito como Toinho as fazia explodir. Havia as bombas-relógios, que demoravam desde alguns minutos até vários dias para explodir; havia as bombas acionadas pela chuva, pelo calor e aquela na qual Toinho estava ainda trabalhando: uma bomba que explodia quando em contato com a luz do sol.
Como fazia tudo isso? O homem não revelava, apenas sorria desconfiado, dizendo que um menino como Lucas, criado nas escolas da capital, iria aprender aquilo muito rapidamente.
As horas voaram rápidas e tanto Toinho quanto Lucas surpreenderam-se ao perceber que a noite já caía. Meio sem jeito, Lucas esboçou um aperto de mão e olhou demoradamente para um amigo cuja amizade duraria tão pouco tempo. Foi embora pedalando sua bicicleta – que também havia sido consertada por Toinho – enquanto a noite terminava de cobrir aquelas roças, aqueles pastos, aquela casa simples.
Muitas noites e muitos dias se passaram desde aquele encontro, mas aquele lugar permanecia quase imune às mudanças temporais. Numa noite como aquela em que Lucas e Toinho se despediram, lá continuavam as velhas cercas, os pastos – com outro gado, também cansado –, pés de milho, agora crescidos, secos, repletos de espigas à espera da colheita, a mesma via estreita, a mesma raiz, agora mais intrusa, atravessando o caminho e contra a qual, mais uma vez um pneu se chocou com violência. Dessa vez, todavia, havia um motor entre aqueles dois pneus, e a velocidade, portanto, era muito maior. Também nessa noite caiu um homem, e quem viria socorrê-lo seria um velho, de chapéu de palha na cabeça, camisa abotoada até a metade do peito, saído da mesma casa sem reboco e de parca iluminação.
A noite era escura. O barulho do acidente despertou Toinho de um sono modorrento. Lentamente levantou da cama, pegou o candeeiro, driblou os objetos que enchiam o pequeno corredor e a sala, tirou a trava da porta, puxou o ferrolho, girou a chave, abriu a porta e ficou ali parado, tentando acostumar seus olhos ao breu que tomava tudo. Apurou o ouvido e conseguiu distinguir o som do pneu da moto girando lentamente e um gemido humano. Arriscou alguns passos. Os dois sons vinham de lugares diferentes. A queda arremessou o motoqueiro longe, pensou. Seguiu os gemidos. Encontrou o homem estirado por cima das macambiras e dos arames que outrora compunham uma cerca. Com um vigor que desmentia a sua idade, arrastou com todo o cuidado que pôde o homem até a sua cama. Voltou, deu uma olhada na moto e viu que não estava obstruindo a estrada. Ao menos não provocará um novo acidente, pensou.
Toda essa ação acontecera em pouquíssimo tempo e Toinho ainda estava fechando a porta da frente para ir cuidar do ferido quando ouviu o barulho das outras motos se aproximando. Teve um pressentimento ruim. Apressou-se em fechar a porta e foi até seu quarto ver o homem, que parecia ter desmaiado. Voltou até a porta cuidadosamente, deixando o candeeiro no quarto.
As motos pararam. Conseguia perceber algumas vozes, mas não distinguia quantos havia nem o que diziam. Vão vir pra cá, pensou. E, quase correndo, foi conferir as trancas, travas e ferrolhos das duas janelas – uma na sala, outra na cozinha, no fundo da casa – e da outra porta, na cozinha, ao lado do seu quarto.
Foi até o pequeno armário na cozinha, misturou rapidamente alguns ingredientes, dentre eles um pouco de cachaça, e voltou até o homem. Examinou com o candeeiro os machucados e viu que eram muitos. Havia um braço aparentemente quebrado, muitos arranhões, um rasgão na perna provocado pelo arame e o mais preocupante: um corte bastante profundo acima da testa, que Toinho acreditava ter sido provocado por uma pancada na parte mais dura do solo. Habilmente aplicou seu unguento nos ferimentos, mantendo-se atento à ação do lado de fora. Os homens se aproximavam.
“Ô de casa!”, gritou um.
“Arrombe a porta logo!”, disse um, não tão baixo como desejaria.
“Cala a boca”, respondeu imediatamente o outro.
O velho permaneceu em silêncio, olhando o homem, que acordou soltando um longo gemido de dor, alto o suficiente para ser ouvido por quem estivesse do lado de fora.
“O homem que caiu da moto está aí dentro? Abra a porta que queremos ter uma conversa com ele.”
O homem na cama abriu os olhos e tentou dizer algo, não compreendido pelo velho.
“… aqui…”
Toinho aproximou o ouvido. A cada nova tentativa o homem parecia recobrar parte das suas forças.
“Diga que não estou aqui…”
O velho, que sempre se julgara sério demais para mentir, aproximou-se cautelosamente da porta da frente, de onde vinham as vozes. Com o olhar baixo, falou, resoluto:
“O homem aqui tá muito ferido, quase morre da queda. Vão pra casa. Amanhã cedo ele sai daqui direto pro hospital.”
O velho compreendera desde o princípio que a intenção daqueles homens não era nada amistosa. O acidentado fugia daquele jeito por algum bom motivo.
“Abra logo a porta!”, gritou alguém.
“Abra a porta ou vamos derrubar!”
“Nosso problema é só com ele. Abra essa porta!”
As ameaças aumentavam do lado de fora, e o velho voltou até o homem. Sentou na cama e o fitava, como se esperasse alguma resposta. O outro ficou em silêncio.
Um baque surdo na porta. Tentavam derrubá-la. O homem ficou aterrorizado. Olhou para o velho, suplicante, mas a sua voz não saía. Percebeu, contudo, que ele permanecera calmo. Outra tentativa, igualmente infrutífera, mas a porta era resistente. Agora o velho levantara e saíra do quarto. O homem o ouviu mexer em algo de metal. Talvez procurasse alguma arma. Mas nada poderia contra eles, pensou.
Do lado de fora os homens conversavam, talvez preparassem uma nova investida.
O velho levara o candeeiro, e Lucas estava no escuro quase total. Tentava contar os caibros, as ripas, as telhas, qualquer coisa que o distraísse e fizesse esquecer por alguns segundos da enrascada em que se enfiara. Agora estou nas mãos de um velho, pensou.
Tentou se levantar. Lá fora continuava o burburinho; dentro, nem ouvia mais o velho. Então o susto, a explosão ensurdecedora. E voltaram à sua memória a bicicleta, a casa sem reboco, a tarde brilhante que passara com um jovem inventor tantos e tantos anos atrás. Era ele mesmo! Como tanta coincidência era possível?
”Acho que agora eles vão embora”, disse baixinho o velho, enquanto entrava no quarto.
Lucas aproveitou a oportunidade para observá-lo. À luz bruxuleante do candeeiro, seu rosto ora trazia as marcas indeléveis da velhice sadia, ora, semioculto nas sombras, revelavam traços inconfundíveis daquele homem de pele morena que quarenta anos antes encantara um menino que ao longo da vida percorrera caminhos bem mais acidentados que aquele que os unira.
“Quer assustar a gente com esse truque, infeliz da peste?”, e atiraram por três vezes na porta, que resistiu.
Assustado, Lucas sentou-se esbaforido na cama, apenas para torcer-se de dor logo em seguida. Após os tiros, os homens arremeteram com ainda mais vigor contra a porta, que começou a ceder. Ao mesmo tempo atiravam pedras e pedaços de pau nas janelas e telhas. Lucas temeu entrar em pânico. Sabia qual seria o seu destino quando eles conseguissem arrombar a porta, ferido do jeito que estava. E principiou a lamentar por ter, inconscientemente, metido o velho naquela confusão.
Toinho já havia se retirado para a sala mais uma vez e voltava novamente, desta vez com algo que parecia um rádio caseiro. Acomodou o objeto no chão e entregou um microfone velho a Lucas. Ligou o rádio, girou alguns botões e disse:
“Aqui é como um telefone. Cê vai falar direto com a polícia. Peça socorro.”
Lucas, de início, ficou sem palavras. Aquilo era um telefone? E que ligava direto para a polícia? Esse velho estava maluco? Em seguida, contudo, lembrou-se do que o velho inventava naquele tempo, e, impulsionado pelos gritos e pancadas na porta, cada vez mais violentas, resolveu arriscar.
“A.. Alô.”
Nem percebeu que o velho mais uma vez deixara o quarto levando o candeeiro e que estava no escuro novamente. Um grande clarão avermelhado do lado de fora e o barulho de chamas fizeram-no soltar o microfone enquanto tentava explicar à polícia onde estava. Toda a casa fora iluminada e ainda se podia perceber que do lado de fora havia uma espécie de grande fogueira.
“Agora eles se assustam de verdade”, disse Toinho, sorridente – o velho vinha da sala quase correndo e pareceu a Lucas que era a primeira vez em muito tempo que o inventor sorria.
Quase imediatamente, entretanto, os ataques voltaram, cada vez mais potentes, seguidos de ameaças e imprecações. Em pouco tempo derrubariam a porta.
O velho olhou enigmaticamente para Lucas, que se perguntou se ele ainda guardava alguma carta na manga. Mais um baque na porta. As dobradiças cediam e já era possível ouvir o barulho da madeira se quebrando. Uma pancada com uma pedra e uma lasca da largura de uma mão de criança voou até o meio da sala. Pela abertura correu uma brisa fria, refrescante, que renovou aquele ar pesado e encheu de inspiração o coração do velho Toinho, que se abaixou e puxou sob a sua cama uma grande caixa branca, que colocou exatamente sob o umbral da porta do quarto.
“O vento”, sussurrou, enquanto sentava-se na cama ao lado de Lucas e soprava o candeeiro.
Durante alguns minutos só o que se ouvia era a batida ritmada dos invasores. Não se via nada. Lucas não entendia bem, mas sentia-se seguro ali, prestes a ser executado, no escuro, ao lado de um velho que parecia um bruxo. Fechou os olhos. Ao seu lado, Toinho não compreendia bem o que acontecia. Foi um homem só toda a vida, fugindo de problemas, de confrontos, de relações. Não se casara. Era amigo de todos mas não tinha amigos, vivera em profunda intimidade consigo. Agora tinha a sua segurança ameaçada por um homem que não conhecia e que provavelmente tinha alguma culpa no cartório. Decidira-se por ajudá-lo, apesar de tudo, e não se arrependia. Ali, na escuridão, dedicava sua amizade a alguém que sequer conseguia ver.
O barulho da porta indo ao chão interrompeu as divagações de ambos.
“Escuro dos infernos!”, disse um dos invasores.
“Cuidado! Devem estar escondidos por aí armados.”
“Alguém tem luz?”
“Não.”
“Não.”
“Não, só uma caixa de fósforo.”
“Diabo!”
E os homens decidiram avançar, munidos apenas da tênue luz de um fósforo, que toda hora se apagava, e de palavras animosas:
“Se tentar alguma coisa, velho da peste, a gente mata você!”
Pararam na frente do quarto, tentando adivinhar onde poderiam estar. Lucas tentava prender a respiração, mas tinha a impressão de que só fazia mais barulho. Quase conseguia ouvir o bater do coração dos intrusos. O velho levou as mãos aos olhos e rezou. Um dos invasores arriscou o primeiro passo, chutando a caixa branca. Num átimo, a sala, a casa, a roça, o mundo, de negro tornou-se branco, de trevas tornou-se luz. Luz que silenciou tudo, tudo clareou, tudo limpou.
Lucas estava cego e surdo. Pensou até estar morto, mas depois de um tempo começou a ouvir e mais um pouco começou a ver um vulto passeando à frente dos seus olhos.
Enquanto recuperava a visão, Lucas pensava em que tipo de homem era Toinho, um velho tão inteligente que nem dava para entender, fazendo coisas que pareciam bruxaria ou milagre. Mas um velho parado no tempo. O mesmo lugar, a mesma casa, ainda sem reboco. Lucas até pensava se não seria ainda a mesma roupa daquele dia, tantos anos antes. Quantas pessoas passaram pela vida daquele velho neste longo hiato? Era tempo suficiente para se perder na vida, refletiu Lucas, pensando em si. Teria o velho permanecido aquele tempo todo ali, oculto, escondendo-se do mundo?
Enquanto ainda viajava nesses pensamentos, começou a distinguir o vulto. Era Toinho, que já tinha amarrado os invasores e agora acendia um lampião a gás, iluminando melhor o ambiente.
Ao longe, começava-se a ouvir o barulho da sirene da polícia. O “rádio-telefone” dera resultado, e Lucas sabia bem qual seria o seu destino agora. Mas estava tranquilo. Sentia-se de novo aquele menino que se deslumbrava com as coisas e para quem o preço do reerguimento era pago com alguns arranhões e umas poucas lágrimas. Estava pronto para se levantar.