Elias Lönnrot Kalevala Dom Quixote Tradução de Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares
Um primeiro contacto com o Kalevala, a grande epopeia finlandesa, pode enganar os mais incautos, levando-os a pensar que estão perante um texto antiquíssimo, talvez oriundo de uma Idade Média mitificada na nossa mente pelos esforços do Romantismo. Na verdade, o Kalevala resulta do trabalho de recolha de Elias Lönnrot, um médico que, na primeira metade do século XIX, percorreu algumas zonas da Finlândia coligindo canções, romances e outras formas orais mantidas pela tradição. Aqui se cruzam heróis, bardos, guerreiros, mestres de ofícios vários, damas cobiçadas e uma tensão constante entre destino e tragédia, tudo nascendo de uma cosmogonia onde são visíveis os arquétipos comuns a outras epopeias. Publicado na sua forma definitiva em 1849, o Kalevala compõe-se de cinquenta cantos (quem atravessou a escolaridade queixando-se da extensão d’Os Lusíadas ficará solidário com os finlandeses) que recompensam com histórias pujantes e ambientes aventurosos quem se lançar na tarefa de lhes deslindar o ritmo, abraçando um modo de contar e cantar que é parte essencial de uma obra como esta.
Não é a primeira vez que se traduz o Kalevala para português, mas é a primeira vez que uma tradução, integral e a partir da língua original, faz verdadeira justiça ao ritmo, à prosódia e à riqueza lexical que adivinhamos no original. As ilustrações de Rogério Ribeiro fazem desta uma edição anda mais preciosa, não só pela beleza do extra-texto visual, mas sobretudo pela intensa relação de complementaridade com o texto.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Fev. 2013)
