Em 2005 a editora Bloomsbury lançou o romance de estréia de Judith Kelly, Rock Me Gently, que teve uma boa aceitação do público, vendendo mais de 30 mil exemplares da edição capa-dura. A editora já fazia planos de tirar uma edição barata, de bolso, quando um leitor descobriu que havia trechos parecidíssimos com trechos de Brighton Rock de Graham Greene, e deu o alarme. Depois, foram descobertos trechos de várias outras obras, de Charlotte Brontë, Hilary Mantel e outros autores. Criou-se um impasse. A imprensa fez um carnaval. Ms. Mantel protestou, e o livro de Ms. Kelly foi recolhido.
Citarei alguns trechos. No livro Fludd, de 1989, Hilary Mantel diz: “Eu poderia beber o sono, disse ela; eu poderia comê-lo. Poderia me refestelar nos meus sonhos como um porco na lama.” No livro de Judith Kelly, lê-se: “Agora, eu poderia beber o sono. Poderia comê-lo. Poderia me refestelar em meus sonhos como um porco na lama”. Em outro livro de Mantel, King Billy is a Gentleman, lê-se: “Minha infância parecia pertencer a um mundo mais remoto e mais cinzento. Era meu território íntimo, visitado às vezes em sonho”. No livro de Judith Kelly, lê-se: “Minha infância tinha sido remetida para um mundo mais remoto e mais cinzento. Era meu território íntimo, que eu raramente visitava”.
Há numerosos exemplos; estes me bastam. O romance de Judith Kelly é ambientado na Inglaterra dos anos 1950, e conta os sofrimentos de uma garota criada (e maltratada) num orfanato de freiras católicas. O livro é autobiográfico. Kelly, ex-produtora de TV, que publicou este seu livro de estréia com 61 anos, foi morar num desses orfanatos aos oito anos, após a morte do pai alcoólatra; lá, foi castigada certa vez por não ter conseguido evitar que uma colega sua se afogasse na praia (episódio que reaparece no livro). A editora Bloomsbury, numa nota de desculpas dirigida a Hilary Mantel, afirmou: “Judith Kelly possui uma memória fora do comum, e, durante a década que ela levou para escrever seu livro, fragmentos de suas extensas leituras acabaram por emergir em seu próprio texto, sem que ela se desse conta”.
Os céticos exclamarão: “Ah, conta outra!” Nada disso. Acontece o tempo inteiro. Às vezes eu pego um livro que li apenas uma vez, trinta anos atrás, e em determinadas passagens sinto um frio na espinha e uma sensação de “déjà-vu”, porque começa um certo parágrafo mais marcante e aquilo brota da minha memória, eu “já sei” o que vem em seguida. Tenho de memória, até hoje, diálogos inteiros, cenas inteiras de livros que li quando garoto, e que se eu quisesse citar hoje não poderia, pois não sei mais o título do livro ou o nome do autor. Se um desses fragmentos brotasse na minha escrita num momento de tensão, de desconcentração, de instabilidade, seria bem possível que eu julgasse ser aquilo obra minha. Quem plagia com más intenções plagia de outro modo. Faz algo mais disfarçado, e mais bem feito.
