Relações na pandemia
cotidiano, isolamento social, mudança de rotina, observação da natureza, convívio social
foto/acervo da colunista Tudo parece conspirar: a torneira da cozinha resolve pingar, a furadeira do vizinho range, a palavra soa torta. Estreitamos os laços como nunca Sibélia Zanon Bastante gente se mudou durante a pandemia. As estradas levam para o interior com a esperança da grama mais verde, o aluguel em conta e um pé de laranja lima para chamar de seu. Apesar de a minha região acolher bem a ideia da casa no campo, essas migrações acontecem por aqui também. No outono passado, eu encontrava quase todo dia a Zita e o Zico. A gente costumava se ver no entardecer, quando eles estavam voltando pra casa. Eles passavam por aqui sempre no mesmo horário. Acabamos fazendo amizade. Aí, veio o inverno e com isso a mudança das rotinas. Eu me fechava mais cedo em casa e acabava não vendo muito o movimento do lado de fora, perdendo aquele dedo de prosa. Quando as horas de sol foram se esticando, notei que a Zita e o Zico também ficavam rodando até mais tarde pela região. Ajustamos nossas agendas ao calor da primavera e voltamos a nos ver. Tinha dias em que eles estavam mais quietos, talvez apressados. Em outros, eram bem conversadores. O pessoal aqui do bairro acha inclusive que eles falam demais e que é melhor não dar muita trela. Mas eu gostava bastante de puxar assunto. Acho eles bem articulados, além de entendem tudo sobre valorização da cultura gastronômica local, sementes e frutas da estação, assuntos que também me interessam. Foi lá pelo meio da primavera que vi o Zico circulando sozinho. Fiquei na minha, achei melhor não perguntar. Tem bastante gente com problemas de relacionamento. Não é fácil conviver o tempo todo, compartilhando a estreiteza dos corredores com fantasmas pandêmicos. Tudo parece conspirar: a torneira da cozinha resolve pingar, a furadeira do vizinho range, a palavra soa torta. Estreitamos os laços como nunca e, por vezes, a fita sufoca em vez de unir. Depois daquelas andanças do Zico, estou já há um bom tempo sem ver nenhum dos dois. Será que eles se mudaram? Com um novo outono recolhendo os raios mais cedo, daqui a pouco o inverno chega e já sinto a falta deles. Chego a desconfiar que a Zita tenha tido um bebê. Aliás, isso também tem acontecido com frequência na pandemia. Aqueles que não se separam, às vezes viram um grude e se multiplicam. – Como vai o Paulinho? – Ah, tá ótimo, crescido, fez 5 anos. E agora temos o Flavinho também. – Uau! Outro dia, acho que vi a Zita e o Zico passando, mas fizeram um caminho diferente do habitual e só os vi de longe. Não tive tempo de alcançá-los pra me certificar e saber das novas. – Papagaios me mordam, Zita! Se o seu filhote for lindo como você… Tenho ido lá no nosso ponto de encontro, na cor certa do entardecer, sempre que posso. Qualquer hora, sei que vamos nos ver. É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta.
Texto originalmente publicado em Revista Fina