Conheci Flávio Viegas Amoreira por intermédio de Régis Bonvicino, que à época dirigia a prestigiosa revista Sibila. Foi ele quem, a propósito de um poema publicado, me falou de Flávio como de um poeta interessante, dotado de uma característica rara: a leitura intensa e constante. “Ele lê muito”, disse-me Bonvicino – e isso, como sabemos, é algo cada vez mais incomum.
Passei depois a ter o prazer de sua companhia nos saraus literários realizados na residência de Mara Chiari e Edson Amâncio. Nessas ocasiões, pude realmente me surpreender com a vastidão de seus conhecimentos literários, que se estendem por várias literaturas e diversos idiomas. Mais tarde, quando Flávio assumiu a curadoria da Casa das Culturas de Santos, tive a oportunidade de encontrá-lo em diferentes eventos e de conhecer mais de perto a sua obra.

Agora, quando ele completa 45 anos de atividade literária, sinto o prazer de realizar um sobrevoo sobre esse percurso. Pedi ao autor que me remetesse algumas de suas obras em ordem cronológica, pois considero fundamental conhecer um escritor segundo o desenvolvimento temporal de sua escrita. Passei, então, a ler esses livros com grande interesse.
A obra de Amoreira é diversificada. Vai do conto à crônica, passa por textos publicados em revistas literárias especializadas, colunas em jornal – em particular no diário A Tribuna, de Santos –, além de sua intensa atuação como agitador cultural e participante de diversas antologias internacionais. Mas, acima de tudo, Flávio é poeta.
Como observa Alfonso Berardinelli, um dos mais importantes críticos literários da Itália, que esteve no Brasil em 2005 para ministrar um curso de pós-graduação na USP e que publicou em 2007 o volume Não incentivem o romance e outros ensaios (Ed. Humanitas – Nova Alexandria):
A poesia contemporânea encontra-se hoje muito mais próxima da prosa. Muitas vezes, ela se apresenta como prosa ritmada e condensada: epigramática, diarística, aforística, satírica. Os poemas longos tornaram-se exceção. A força da poesia reside justamente nisso: ela continua sendo o gênero mais econômico e sintético da literatura, o modo mais eficaz de dizer algo singular, preciso e, ao mesmo tempo, fugidio em poucas linhas, valendo-se de jogos conceituais e fônicos.
É nesse sentido que pode ser lida a poesia de Flávio Viegas Amoreira. À parte o admirável poema longo Whitman, meu brother, escrito em homenagem aos duzentos anos de Walt Whitman e que “ecoa sua mensagem” ao longo de todo o texto, temos uma obra poética composta majoritariamente por poemas organizados em livros como constelações de fragmentos – densos, concentrados, mas não contínuos.
A ode mereceu elogios expressivos, em particular do filósofo Oswaldo Giacoia Júnior, segundo o qual, na poesia,
a manifestação do espírito radica no corpo e nele se entranha, vive de suas exaltações e desfalecimentos, na plenitude de seus fluxos e intensidades, como o mostra o verso livre e a obra admiravelmente solta e única de Walt Whitman. É com esse legado que dialoga o poeta Flávio Veigas Amoreira, celebrando o bicentenário do nascimento de Whitman numa ode inspirada que constitui o núcleo pulsante do livro. Nela, o passado dialoga com o presente, e o poeta brasileiro celebra as saturnais de seu encontro com o brother norte-americano, abrindo horizontes de futuro sempre deixados em suspenso, na utopia de uma promessa de libertação que nos diz respeito hoje da forma mais urgente, na tensa produtividade do negativo.

Antes de tratar mais diretamente dos poemas, gostaria de mencionar um livro recente: 50 poemas escolhidos pelo autor, publicado no ano passado (Ed. Cloé). Flávio fez questão de selecionar os poemas por ocasião desse duplo aniversário – 45 anos de atuação literária e 60 anos de idade. Considerou que havia chegado o momento de realizar um somatório de sua obra e, assim, apresentou ao leitor esse recorte autoral.
No posfácio desse volume, intitulado O átimo do gozo na escrita, o poeta, editor e ensaísta Ademir Demarchi traça observações de grande acuidade crítica. Recorto aqui alguns de seus pontos centrais.
Segundo Demarchi, a poética de Flávio Amoreira está claramente definida como a expressão de uma prática que vincula estética e existência. Daí a sensação de uma fala contínua, como se os poemas brotassem de uma mente que navega num oceano imaginoso – imagem que se repete nos textos inspirados pelo Atlântico diante do qual o poeta habita. Santista, Flávio mantém uma relação visceral com o mar.
Escrever, nesse contexto, surge como obsessão: algo de sexual, onírico, metódico; uma reiteração compulsiva da linguagem como experimento, como objeto, como erótica da arte. O mar, aqui, não é apenas paisagem, mas metáfora da existência – e, ao mesmo tempo, metáfora do próprio oceano da linguagem.
O modo existencial de Flávio, transfigurado em poética, encontra irmanamento e identificação em outros artistas e escritores para os quais o homoerotismo foi força vitalizante e forma de afirmação da experiência. Esses nomes desfilam pelos poemas como presenças tutelares: Caravaggio, Pasolini, Proust, Kaváfys, Kerouac, Roberto Piva, Orides Fontela, José Celso Martinez Corrêa, Walt Whitman. A eles –valorizados não apenas pela vivência dissidente, mas também pela radicalidade de suas pesquisas estéticas e de pensamento –somam-se figuras como David Lynch, Wim Wenders, Joyce, Mallarmé, Oswald de Andrade, os poetas concretos, José Agrippino de Paula e Cláudio Willer. Todos emergem como personagens pulsantes da metrópole labiríntica que é São Paulo, espaço de errância e revelação, onde se configura também um lugar de fuga, distante do mar –seu antípoda simbólico.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi o de descobrir uma foto em que Flávio aparecera como beatnik, ou melhor, como xamã dos beatniks, na sua juventude. É um episódio muito interessante que se prende ao romance On the Road, de Jack Kerouac. Com esse livro, nós “não estamos mais na imobilidade” – explica Berardinelli –,
mas ao contrário, estamos numa perpétua mobilidade. Nós não estamos mais na velhice, mas numa perpétua juventude, na descoberta do mundo como aventura, sem nenhum outro objetivo além da descoberta por parte do indivíduo de si mesmo. Nenhum intelectualismo, nenhuma distância irônica, nem ceticismo, nem noção do passado, tudo é presente.
É a fase juvenil do Flávio, da qual On the Road foi a Bíblia. Não apenas dele,
mas de três gerações de jovens anarquistas que não queriam reconhecer as instituições sociais, seja na América, na Europa e no Brasil. Em particular, foi a Bíblia dos jovens nômades e fantasiosos norte-americanos, nômades em fuga mística do mundo conhecido. Tratava-se de um romance totalmente impregnado da tradição crítico-literária norte-americana, uma tradição que zera o passado e reconduz tudo à origem: um indivíduo jovem, sozinho diante do mundo. E o tipo de narrativa adequado a essa ética é o romance como empreendimento físico, experiência corporal, êxtase elementar diante de um mar de percepções elementares.
É claro que Kerouac provém de outras leituras, que explorou: Melville, Whitman, Jack London, Hemingway, Henry Miller, porém nos Estados Unidos a tradição só é aceitável como “segunda natureza”, como diz Berardinelli, que prossegue (atualíssimo!):
Ela não é relembrada, ela não é evocada, ela é comida, engolida, metabolizada e esquecida. Esquecê-la é a melhor maneira de respeitá-la. O primeiro mandamento da tradição norte-americana é ignorar a tradição. Viver no presente, fazer experiências pessoais, obedecer ao próprio instinto, pagar fisicamente o preço da própria busca da realidade, da própria busca da autenticidade, daquilo que se considera importante.
Em literatura isso significa dizer tudo, sem hesitação, sem reticências, medos ou escrúpulos acadêmicos. Sem seleções, sem mediações intelectuais.
Dessa geração Beat, podemos encontrar sementes também nos muitos livros de Flávio, como das tantas outras gerações lembradas por Nelson de Oliveira em sua Geração ZeroZero (Ed. Língua Geral Livros, 2011): Geração Modernista, Geração Regionalista, Geração 45, Geração Mimeógrafo, Geração Concretista, Geração Tropicalista, Geração Web e… Geração ZeroZero. Se não, vejamos alguns indícios entre os livros remetidos por Flávio:
Maralto ( 2002, 7Letras): “escrever deve/ tem ser obsessão/ o livro obsessivo de alguma coisa/ sexual,/ onírica,/ metódica/reiteração compulsiva/ linguagem,/ experimento objetal;/ superfície do mar/ intimidades/ trilogias polonesas/ tigres argentinos/ hábitos dinamarqueses/ o que seja/(- detalhe indefinição repositório) marca de tentativas;”
A biblioteca submergida (2003, 7Letras): “metáfora espacial/ faustiano melífluo/ desterrado e pobre/ tinha roçado meu perigo/ chego ao perigo e ultrapasso/ linha de confusa exposição/ ceder ou parar ali/ folgava nisso/ o pecado deve ser sempre dito/ soar direto, impulso é o que te impedia Ter escrito,/ dorme como pássaro/ a depravação é informe santidade/ mais rápido ser feliz articular pensando/ embarcamos/ pedra sobra do rochedo/ internalizando:/ é de dentro causa-pedido/ Deus é consciência de Deus na sua ausência/ esbate arrebata, não comungue o cansaço/ rede neural propícia/ metamorfoses algas corais/ pés sem tronco, sinapses retorcidas/ sátiros escaldados de cobiça,”
Contogramas (2003, 7Letras): “O que enseja contograma? O que contograma é? A nota/ a notícia de jornal ou de fato; a foto emblemática, o picaresco, o pastiche, ‘pantagruelismo’, os pequenos capítulos de Machado; contograma diário, semanário, cartográfico. Godunov era contograma. Cacilda contograma. Louise Brooks, contograma, Laura, Sunset Boulevard, apartamento 0, contogramas, Antígona, contograma, Laura, Sunset Boulevard, Apartamento Zero, contotogramas. Antígona protograma. “Angústia” de Tchekhov, o perfeito contograma. Borges era ele contograma. Lúcio Cardoso, contograma esparramado, regurgitando contogramas.”
Escorbuto-Cantos da Costa (2005, 7Letras): [É com arte que se manejam a vela e os remos que faz com que os barcos naveguem céleres; é a arte que permite aos carros correrem velozes; e a arte deve governar o Amor. Graças aos sons da cítara, o filho de Philira educou Aquiles menino, e com esta arte suave abrandou sua alma selvagem—Ovídio]
Edoardo, o Ele de Nós (2007, 7Letras): “Parti mirando-te por dentro de mim/ como um Lince indo até o último ponto ao cabo de meu intento./Assim parti, no destemor dos que o Amor tiveram/ – sabendo chegado o inverno/ ingente me pediu a nobre lida de largar-me ébrio de antanho/sem mais contigo./Se pensar é o máximo/ sentir é o infinito.”
Desaforismos & Tramas de Metrô (2015, 7Letras): “O erro é o que não amamos como as flores que polinizam sem dar conta onde vão amanhecer frutos./O fatídico morre quando algo diferente que estava pronto amanhece./Sorte é tão somente sermos regidos pelo DOUTOR IMPONDERÁVEL.”
O vazio refletido na luz do nada (2015, 7Letras): “Ter uma só máscara é tão pouco, Thiago. Formar o estilo, suavizações na expressão, a felicidade curta do poema e do gesto teatral, sublime serenidade do interpretado, quando reverberado. Ir além do demonstrado, seja na literatura ou no palco. Escritor e ator são siameses ligados por um fio de sutileza quântica de compreensão. Descrever é menos do que apresentado. A poesia necessária, não útil. A arte ama o acaso.”
Des casulo (2023 – Costelas Felinas): “Vi a aurora/enluecer/engolindo seu verso dourado.”
Last, but not least, Anton Kashkin, semiólogo/ crítico russo nos dá, antes de Charles Perrone, da Universidade da Flórida, uma das provas do reconhecimento internacional de Flávio Viegas Amoreira, por ocasião da publicação de Edoardo, o Ele de Nós:
Descobri a obra de Flávio Viegas Amoreira na University of Massachusetts: foi espanto que insere de vez a literatura brasileira nas possibilidades da metatextualidade: neo-fraseado, bólido irrompendo em estilhaços de significações pela semiosfera: é a renúncia da unidade do ‘eu’ na escritura pela prosopopeia do ‘ele’, infinitização do ‘outro’. A traduzibilidade de sua fascinante estranheza só iguala quando li em russo o americano John Barth: Incompreensível que Amoreira seja mais reconhecido pela crítica estrangeira: o arrebatamento poético parece condenar a injusto obscurantismo esse Mário Peixoto das letras. Seu percurso é longo: próprio da natureza dos raros. A pós-modernidade já se diz em português: surge novo estilo. Como se diz no Brasil: é a ‘curtição’ da linguagem, genotexto em estado puro.
Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.