Tema 25: Carta + Bang + Chuva

O som ritmado da chuva embala a escrita de uma carta que nunca terei coragem de colocar no correio. Porque este gesto íntimo, de quem abre a alma a um desconhecido com quem mantém um passado, é, também ele, a propagação de uma ferida em aberto. E de um sonho sussurrado internamente, como se esperássemos que a vida nos fizesse o favor de voltar atrás, poupando-nos à colisão de uma estrada em contramão.

Bang! Desisto e refugio-me, antes, numa mensagem de texto. Por ser mais rápida, mais imediata e, inclusive, mais impessoal - criando a ilusão de uma certa banalidade. E inicio-a com o som que nos cruzou: um embate em câmara lenta. Será que ainda te recordas? Tento não atribuir grande importância à questão, mas estas malditas saudades consomem-me o pensamento e a racionalidade. Por isso, cedo a todos os meus impulsos e ignoro o impacto que esta missiva pode ter nas entrelinhas - de quem a recebe e do vazio que pode chegar em resposta.

Estava um dia cinzento e choroso. Saía de casa apressada, muito perto de me atrasar para apanhar o comboio. Já a fechar a porta, de acesso à rua, viro-me no exato momento em que te aproximas de bicicleta, para entregar o correio, e derrapas na calçada gasta. Paralisada, só consegui ver envelopes e folhas amarelas em voo e o teu olhar que tinha tanto de embaraço, como de fúria. Ainda olhei para o relógio, mas não poderia deixar-te ali, sozinho, a juntar o caos espalhado no passeio, sobretudo, quando o céu ameaçava sucumbir, tão longe de saber que, anos mais tarde, esta seria a metáfora perfeita da nossa relação.

Volto a reler a mensagem e apago-a. Talvez algumas memórias não sirvam para reparar o que se quebrou, mas para nos relembrarem que houve um tempo em que, tal como a chuva, foram uma bênção em terreno seco.