Mataram a Cotovia | Harper Lee
A narradora, enquanto adulta, regressa à infância sem perder a frescura do olhar, recordando os medos que só as crianças conseguem alimentar e a realidade fantástica que só elas conseguem habitar. Atticus, sozinho, vê-se forçado a tomar conta dos dois filhos, Scout e Jem. Advogado de profissão procura incutir nos filhos os valores humanistas que ele próprio protagoniza. Por falta de jeito paternal, fá-lo muitas das vezes de forma direta, num discurso adulto, talvez, consciente que será dessa forma que eles o irão recordar quando finalmente atingirem a maturidade para o entender.
Harper Lee inventou esta Maycomb, tal como anos mais tarde Gabriel Garcia Marques inventaria Macondo: é preciso um chão, uma casa que nos abriga, uma comunidade que nos acolhe (por mais típica ou atípica que seja), para se projetar, em formato de memórias, o testemunho do que somos e de como chegámos até aqui, sem concessões ou branqueamentos. O racismo de um sul libertado do esclavagismo surge na naturalidade de um olhar infantil, como na recordação do gesto dos negros na sala do tribunal: Quatro negros levantaram-se para nos darem os seus lugares na primeira fila. Ou o olhar humorado sobre o papel da Igreja no conforto social da comunidade: …tantas vezes na minha igreja, fui confrontada com a doutrina da Impureza da Mulher, que parecia afligir todos os clérigos.
O jogo da inocência nunca se joga duas vezes, quando finalmente Boo Radley sai de casa, depois de todas as tentativas para o avistar, arrasta consigo a entrada já na idade adulta. Os medos que perseguimos enquanto crianças preparam-nos para a idade adulta, só que de uma forma que não o podemos adivinhar. Uma leitura para todos, mas sobretudo, para os que já não se lembram do quanto tempo durou a sua infância.
…disse que eu era a mulher que amaria para toda a vida e depois ignorou-me. Dei-lhe duas tareias, mas de nada adiantou, já que só o fez aproximar-se do Jem.