06
Mai22
Maria do Rosário Pedreira
Nesta casa, em que as mulheres vivem juntas, de um lado, e os homens do outro, construída em volta de um grande pátio central, Annette fica pela primeira vez com uma ideia pálida, ou melhor, bem garrida, de como vivem as famílias árabes, quem ocupa que lugar na comunidade e onde se situam os limites que demarcam os movimentos de cada um. Entra num mundo desconhecido e não se arroga o direito de julgar. Ou será que sim? Julgar, não, não lhe chamaria assim, mas não consegue evitar não pensar absolutamente nada. Quando vê a cara triste da belíssima Aïcha, que não tem filhos e por isso vai ter uma jovem rival na família. Durante as semanas da sua permanênca, ocupa, na qualidade de francesa, doutora, e devido ao empenhamento da FLN, um papel híbrido entre homem e mulher. É tratada pelas mulheres como uma mulher um tanto bizarra e, pelos homens, como um homem um tanto bizarro. É a única mulher autorizada a comer com eles se quiser; é a única mulher autorizada a sentar-se junto ao pai, debaixo da figueira, ao pé da qual pastam algumas ovelhas da família. Estará já a pensar no que será o futuro? [...]
Anne Weber, Annette, Epopeia de Uma Heroína (Prémio do Livro Alemão),
tradução de Helena Topa