Fotografia da minha autoria

«Há uma altura em que uma mulher simplesmente se cansa»

Avisos de Conteúdo: Referência a Aborto e a Violação; Sexo, Álcool, Morte

O meu primeiro instinto, quando pego num livro, é ler a sinopse: para saber o que retrata e se se adequa às minhas preferências ou, então, para perceber se sai da minha zona de conforto e pretendo arriscar. O romance mais recente de Elizabeth Gilbert, por pertencer ao primeiro grupo, figurava na minha lista de desejos, há algum tempo, mas nunca tinha sido uma prioridade, até perceber que seria uma das escolhas do Livra-te.

UMA ODE À LIBERDADE FEMININA

A Cidade das Mulheres é uma longa carta, escrita por Vivian Morris, para alguém de quem apenas conhecemos o nome. Transportando-nos para Nova Iorque, nos anos 1940, com a guerra em cenário de fundo, somos recebidos pelo «decadente teatro de variedades» da sua tia Peg, o Lily Playhouse. E é a partir deste palco que o espetáculo se constrói, até porque acompanharemos a metamorfose de uma jovem de 19 anos.

«As críticas dela ardiam, mas sem doer. Sentia-me suficientemente fascinada pela moda 

para querer aprender, e sabia que ela só desejava desenvolver as minhas capacidades»

A escrita é fluída, mas a leitura revelou-se lenta, talvez por não me identificar com a protagonista. Terminei-a com a mesma distância relacional, mas a compreender melhor Vivian; a compreender o quanto a sua voz é necessária. Porque transformou-se, cresceu e traçou o seu caminho: nem sempre segura e ponderada, mas sempre senhora de si. E por mais que chocasse com a sua personalidade, pelo egocentrismo e por se concentrar em aspetos supérfluos, é inegável que ela fazia valer uma arma poderosa: a liberdade de ser.

«Ficámos a olhar um para o outro por um momento. Houve muita informação 

transmitida naquele silêncio - toda uma conversa, poder-se-ia dizer»

Portanto, neste romance, com muita boémia à mistura, há um retrato fascinante sobre empoderamento, poder feminino e sensualidade - e sexualidade também. Além disso, é uma narrativa com muito sentido de humor.

UMA ATMOSFERA INEBRIANTE

O ambiente é inebriante, muito pelas personagens fascinantes e pela componente descritiva tão sensorial, que nos envolve como se fizéssemos parte da ação. Embora lhe cortasse algumas partes, porque sinto que acrescentaram pouco ao enredo, é um texto importante, já que nos mostra que a nossa vida pode ser interessante dentro de uma certa banalidade, que há um propósito nos nossos passos, por mais que sejam silenciosos, e que, apesar de o mundo ser um espaço complexo, o amor e a amizade são um lugar de honra.

«Ao fim de uma certa idade, todos caminhamos neste mundo com corpos feitos de segredos,

 vergonha, mágoa e velhas feridas por sarar. Os nossos corações criam chagas e deformações em 

torno de toda esta dor - e, no entanto, não sei como, continuamos em frente»

A Cidade das Mulheres quebra as leis do politicamente correto, desconstruindo a sociedade machista da época [e que permanece tão atual]. Com várias camadas que merecem ser desvendadas, este livro exalta o glamour, a independência, a vulnerabilidade e as relações que atribuem significado à nossa jornada. Em simultâneo, é a prova de que devemos viver de acordo com os nossos padrões e não por aqueles que nos são impostos.

◾ DISPONIBILIDADE ◾

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥