ANTES DO NOME

Não me importa a palavra, esta corriqueira.

Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,

os sítios escuros onde nasce o 'de', o 'aliás',

o 'o', o 'porém' e o 'que', esta incompreensível

muleta que me apoia.

Quem entender a linguagem entende Deus

cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.

A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,

foi inventada para ser calada.

Em momentos de graça, infrequentíssimos,

se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.

Puro susto e terror.

Adélia Prado

in Bagagem

2007

Adélia Prado é uma poetisa brasileira e nasceu em 1935 em Divinópolis, Estado de Minas Gerais, Brasil.

 

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