15
Nov24
Maria do Rosário Pedreira
Ela acorda a meio da noite no lado de Larry na cama. Algures no escuro do seu corpo uma vela arde por ele, mas quando ela a procura para alumiar o exterior do corpo somente encontra escuridão. Durante o sono ouviu o vento a chamar e agora parece andar a vaguear pela casa como se a porta de entrada tivesse sido deixada aberta. Vai à janela e espreita o exterior, as nuvens velozes e alaranjadas, contemplando a cidade e ansiando por ela. Percorre a casa às escuras sentindo os pés a arrefecer, com a sensção de se ter tornado um fantasma do seu passado. Detendo-se à porta do quarto dos filhos a ouvi-los dormir, enquanto lá fora o vento sopra. Não há nada mais inocente do que uma criança a dormir, é deixar as crianças dormir e quando ele tiver regressado continuaremos como antes. Ela enfia-se na cama, esfrega os pés para os aquecer e acorda com uma luz estranha, escutando um uivo rouco do vento, a janela batida com gravilha molhada. Ainda meio a dormir, aproxima-se da janela com a sensação de a casa estar a voar, às voltas em plena ventania. [...]
Paul Lynch, Canção do Profeta, tradução de Marta Mendonça