(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de fevereiro de 2000)
Pietro Citati, assim como fez com Goethe, escreveu um ensaio crítico-biográfico de exuberante originalidade sobre Marcel Proust (1871-1922) e seu Em busca do tempo perdido. Ao colocar a tradução da sempre ótima Rosa Freire D´Aguiar no mercado, com PROUST como singelo título, a Companhia das Letras demonstra um inequívoco receio pelo destino que teria no Brasil o título original, A pomba apunhalada [La colomba pugnalata, Itália-1996].
De fato, usar a imagem de “pomba apunhalada” para caracterizar o grandíssimo escritor francês é ir um pouco nos limites do mau-gosto e do melodramático (alguns dirão, até do afeminado). O título, no entanto, como a própria obra proustiana (e o livro inteiro de Citati) recobre uma teia de alusões: ao passear com seu namoradinho Reynaldo Hahn no Jardin d´Acclimation, em Paris, Proust vê um grupo de colombes poignardées—pombas que têm no peito uma macha vermelha semelhante a uma ferida ensanguentada. Ele se entusiasma com essas aves singulares. Anos depois, ao ver uma grande dama da sociedade, daquelas que o fascinavam, com rosas vermelhas sobre um vestido branco, diz a ela, exercitando seu infalível instinto para a analogia que “assim ferida no coração por esse grande buquê de rosas vermelhas, ela o fazia pensar numa colombe poignardée”.
O mais importante da imagem, porém, é que ela foi um dos títulos pensados para À sombra das moças em flor (2º. volume da Recherche). Para Citati, “a pomba era ele mesmo, que apunhalou o coração com seu agudíssimo sentimento de culpa e foi apunhalado por mil dores que ele mesmo transformou em tragédia irremediável”.
Por que se deter tanto assim num título? Porque, com sua quase irritante melodramaticidade, ele oculta e revela o segredo do fascínio que o rincão proustiano do universo exerce: precisamos ajustar nosso espírito para passarmos por cima da singularidade e fragilidade patética de Marcel Proust enquanto pessoa. Fazendo isso, entramos num domínio de rigor e beleza, que traz para a literatura do século XX o que Platão deu para a filosofia ocidental.
Enquanto está no nível da “pomba apunhalada”, enquanto está vagando com o jovem autor, que ainda não se isolara do mundo, que ainda estava tateando com sua sensibilidade especial o mundo da linguagem, o estilo de Citati chega às raias do ridículo, apunhalado por essa existência impossível que Proust levou. E que por mais documentada que já tenha sido, persiste como uma vida que causa perplexidade, estranheza (às vezes, aversão).
Curiosamente, quem aqui escreve leu um calhamaço biográfico de George D. Painter, extremamente minucioso, e ainda não entendia a vida de Marcel Proust. A obra do italiano—que só usa a biografia para chegar à realização literária—, em compensação opera o milagre: ao terminar o livro, sentimos que conhecemos melhor o criador da Recherche, e possivelmente o maior dos autores franceses.
Conforme as pessoas importantes (a mãe, principalmente) vão morrendo ou desaparecendo da sua vida, e ele vai mudando de casa, impondo seus horários (praticamente só vivia à noite) a todos à sua volta, até ficar isolado por paredes de cortiça, levando 14 anos a escrever uma obra de 3 mil páginas, o estilo citatiano—como que acompanhando seu personagem—adensa-se, torna-se cada vez mais penetrante, instalando-se, soberano, numa arte difícil, mais difícil ainda que a análise crítica: o comentário.
Praticado pelo grande Erich Auerbach (o autor de Mimesis) e aqui no Brasil, com rara felicidade, por Davi Arrigucci Jr. (nos seus belos livros sobre Julio Cortázar & Manuel Bandeira), o comentário acompanha de muito perto o próprio texto do autor analisado, fazendo-o literalmente desabrochar diante de nossos olhos, tal como a Madeleine, oferecida ao narrador de No caminho de Swann, e mergulhada numa taça de chá, por efeito da “lembrança do paladar” (memória involuntária) fez com que ele se lembrasse do passado, do “tempo perdido”.
É uma maneira tão sutil e orgânica de analisar um texto que a interpretação aprece surgir naturalmente, sem artifício algum (é claro que isso não é verdadeiro, mas é por isso que os textos de Auerbach, Arrigucci & Citati estão entre os mais persuasivos que já surgiram entre o ensaísmo literário).
Da maneira como Citati articula seus comentários sobre Em busca do tempo perdido, na 3ª. parte de PROUST, o leitor percebe como foi necessário primeiro passar pelo biográfico, nas duas primeiras seções. Pois assim compreende-se que certas situações e eventos tornaram-se arquetípicos para o jovem Marcel, como ele pôde depois transfigurá-los de forma a dar uma unidade alucinante ao seu grande projeto.
Um projeto que para ser realizado (embora tenha ficado inacabado, de certa forma) consumiu uma vida e fez com que seu autor passasse década e meia nas trevas. Para produzir a grande revelação iluminatória que fundamenta o derradeiro volume, O tempo reencontrado.
Mas não é sempre assim com as revelações? Revelação sem renúncia é algo que nunca se viu na história da humanidade.




