Já fazia um certo tempo que queria ler Precisamos falar sobre o Kevin, livro de Lionel Shriver lançado aqui no Brasil pela Intrínseca. Não tanto pelo filme, mas por este tópico lá do Meia Palavra. A capa assustadora com o garotinho usando uma máscara monstruosa me chamou a atenção quase imediatamente.
Logo vieram as notícias sobre o filme; entre elas esse comentário n’A Biblioteca de Raquel e esse texto no blog do Zeca Camargo que me fez decidir a ler o livro, de preferência antes de ver a película. Por sorte, consegui um exemplar ainda com a capa antiga. E eis que, nesta última semana, me lancei na leitura de Precisamos falar sobre o Kevin com pouquíssimas informações sobre o enredo.
O que eu sabia – que Kevin é um daqueles “garotos Columbine” que assassinou alguns de seus colegas na escola – é revelado já nas primeiras páginas. Poderíamos dizer que este é um romance epistolar, já que é narrado através das cartas que Eva Katchadourian, mãe de Kevin, manda a seu (ex) marido Franklin, de quem, presumi inicialmente, se separou após o incidente.
As cartas são uma espécie de terapia para Eva, e nelas ela despeja toda a história de seu relacionamento com Franklin e com seus filhos, mas principalmente com Kevin. Sentimos desde a primeira frase que Eva usa esse artifício para purgar sua ferida e para tentar entender realmente o que aconteceu.
Ficamos sabendo, por exemplo, que Eva é de ascendência armênia e uma bem sucedida empresária, editora de guias de viagem A Wing & A Prayer, e Franklin um americano típico cuja ocupação é encontrar a locação perfeita para filmes e propagandas. Decidem ter filhos numa idade madura, depois de muita conversa. Kevin foi uma criança planejada e querida por seus pais, ao menos no início.
Fica claro, no entanto, assim que Kevin entra na equação, que esta não é uma relação mãe&filho “normal”, mas uma relação mãe X filho. Segue-se uma longa reflexão sobre o amor inato dos pais por seus filhos, resumida em incidentes-chave nos quais Eva demonstra um antagonismo exasperador entre a sua visão e a de Franklin sobre Kevin.
A prosa de Lionel Shriver nos faz crer que Eva é real, e que está determinada a ser 100% honesta em seu relato, ainda que isto lhe custe sua imagem – já tão fragilizada – de mãe. Ela não busca redenção com suas palavras, mas entendimento.
O que chama mais atenção em Precisamos falar sobre o Kevin é o fato de que, tomando como base um crime como o assassinato em massa numa escola perpetrado por um de seus alunos – um tema assustadoramente reincidente nos EUA, e que já teve seus casos mesmo aqui no Brasil -, a autora escolheu não os pontos de vista mais corriqueiros na ficção, como o do assassino ou dos pais das vítimas, mas a mãe do assassino.
E não uma mãe qualquer. Uma mãe que vê traços de maldade em seu filho desde a mais tenra idade e se intimida com isso. Uma mãe desesperada para amar seu filho, algo que todos assumimos ser algo natural e instintivo.
Tenho que dizer que o livro me pegou de surpresa e me deixou profundamente impressionada. A honestidade de Eva é quase brutal, e mesmo que tenhamos só um ponto de vista, o retrato que dele se forma é monstruoso. É mais do que uma busca pela resposta do “onde foi que eu errei?”, é um questionamento duro e sincero de que “devemos amar nossos filhos sob todas as circunstâncias?”. E as respostas ferem. O resultado é perturbador. E excelente.
Precisamos falar sobre o Kevin
Lionel Shriver
Tradução: Vera Ribeiro
Páginas: 464
Preço Sugerido: R$ 49,90
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