Alexandra Lucas Coelho Vai, Brasil Tinta da China
Uma frase que podia resumir este livro, mas que não resume nada porque os resumos são coisas pouco úteis: “Em momentos insanos até podemos achar que uma ideia nossa sobre o Brasil vai caber no Brasil, mas o Brasil nunca vai caber nela.” (p.161) Entre rodas de samba e umbanda, desfiles na primeira pessoa na Sapucaí que atravessa o Carnaval do Rio e livros de poesia que conduzem a espectáculos, que conduzem a viagens, que conduzem à Amazónia ou a Minas Gerais, Alexandra Lucas Coelho escreve o Brasil que tem visto sem vontade de generalizar, sem maniqueísmos simplistas e com as frases directamente ligadas ao nervo. Aos nervos todos, na verdade, porque é o corpo que vê e conta, e talvez por isso esta escrita esteja tão para lá do acto de reportar.
A repórter escreve o português que já falava misturado com o português que a rodeia. Não é frescura tropical, é engenho no uso da língua e compreensão da função que esta cumpre. Como explica, a dada altura, para quê insistir no autocarro, na alcunha ou no lugar quando à sua volta o que existe é o ônibus, o apelido e o sítio? Faz sentido, mesmo que assuste os puristas da língua que não apreciam caetanices nem gente que diz que come o outro para melhor o compreender. Por falar em comer o outro, Oswald de Andrade e o legado do Manifesto Antropofágico está por todo o lado neste livro, e não só nas citações constantes. Os leitores de Alexandra Lucas Coelho reconhecerão muitos textos que foram saindo no Público nos últimos três anos, agora embalados por aquilo que os jornais não dão a ler, outras notas, detalhes que terão ficado no caderno. Não dá para ter ideias arrumadas sobre o Brasil, dá para ter vontade de comer o Brasil.
Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, aqui numa versão ligeiramente mais longa)
