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| Fotografia da minha autoria |
«Entre árvores, a Feira do Livro celebra a escrita e a escuta»
O Porto tem um encanto imperdível, transmitindo uma energia especial, quando a cidade respira e se reveste de livros. Aliás, quando os Jardins do Palácio de Cristal, de um charme sem igual, recebem um dos eventos mais bonitos de sempre: a Feira do Livro. E a realização literária deste ano - que temi não ver a acontecer - teve uma mensagem poderosa, porque foi pensada para enaltecer a palavra no feminino.
EDIÇÃO 2020
Com início a 28 de agosto e fim a 13 de setembro, «Alegria para o fim do mundo» foi o mote desta edição, que estruturou o seu programa com o intuito de homenagear a poeta Leonor de Almeida - cujo nome ficará eternizado na Avenida das Tílias - e a imunologista e, também, poeta Maria de Sousa - que faleceu recentemente. Assim, definindo o fio condutor, focaram-se «na potência da escrita e na voz» das mulheres.
Em simultâneo, e tendo em consideração as ramificações da Feira do Livro, tornou-se evidente que a força central era a valorização da Língua Portuguesa e dos escritores e demais artistas, com particular «enfoque para os que trabalham no Porto ou a partir» da bela Invicta.
Apresentando uma programação diversificada, que privilegiava conversas, oficinas, concertos de bolso, debates, lições, exposições, cinema, uma emissão de rádio e mais uma série de atividades para públicos de diferentes faixas etárias, procuraram «incentivar à atividade comercial», sobretudo, de um setor tão penalizado pela pandemia. Deste modo, aproveitando o espaço ao máximo, estavam 119 stands inscritos. E todos partilhavam um objetivo comum: garantir as medidas preventivas, para que pudéssemos usufruir em total segurança.
ORGANIZAÇÃO
Face à realidade, foi desenvolvido um plano de contingência, que poderia ser consultado neste site. Em traços gerais, o recinto teria uma lotação máxima de 3500 pessoas, estando condicionada a movimentação pelos Jardins. Além disso, a circulação deveria ser feita pela direita, os stands dispunham de uma quantidade de visitantes reduzida e havia vários postos de higienização. No entanto, as medidas de segurança não se limitavam aos espaços exteriores, por isso, foram, igualmente, definidas regras para entrar nos pavilhões, para as interações comerciais/sociais e para atividades em ambiente fechado.
Respeitando os horários e as condições de acesso, certas zonas só podiam ser frequentadas mediante o levantamento e a apresentação de bilhetes [gratuitos], sendo mais fácil para controlar o número de participantes e, desta maneira, assegurar o bem-estar dos presentes.
O maior festival literário da cidade esteve atento a várias frentes e, pessoalmente, só posso tecer elogios aos grupos envolvidos, porque tiveram um trabalho cuidado, permitindo-nos descontrair e desfrutar do seu ambiente mágico e de uma agenda plural e idealizada ao pormenor.
AS MINHAS CONSIDERAÇÕES
Fui três dias à Feira do Livro e o meu discurso é transversal a todos eles, uma vez que me senti bastante segura. É certo que fiz por ir em horários de menor confusão, mas foi gratificante verificar o esmero da organização, visto que havia equipas destacadas para nos receber na entrada, para controlar a circulação pelo local e para repor o gel desinfetante. Num ano tão atípico, é maravilhoso perceber que existiu um esforço comum, garantindo-nos uma experiência menos condicionada.
Ainda assim, fiquei um pouco desiludida com a postura de algumas pessoas, pois focaram grande parte das suas críticas nas promoções - ou na ausência delas -, ignorando o tema do evento - e o quanto o mesmo é fundamental - e esquecendo-se que, devido à pandemia, é natural que os descontos não sejam gigantes. Além disso, vi imensas comparações com a Feira do Livro de Lisboa, o que não me pareceu justo, atendendo a que são organizadas por entidades distintas. Logo, os recursos também serão outros. E, desde já, aproveito para vos convidar a lerem o destaque que a Sofia criou no seu instagram, porque é uma excelente oportunidade para desmistificarmos este assunto.
Creio que pudesse ser benéfico as editoras - ou os seus representantes, no nosso caso - terem um papel mais ativo na promoção da sua presença na Feira, atraindo mais público. Mas esta questão acabará por coincidir com o ponto anterior, porque não deixa de ser uma consequência dos diferentes investimentos. E porque, na realidade, não estando em nome próprio, concentram-se naquela onde têm presença física. Pode ser ingénuo da minha parte, mas sinto que as Feiras do Livro deveriam, isso sim, ser organizadas pela mesma entidade, de modo a minimizar as disparidades. Contudo, também não nos podemos esquecer que temos uma voz e que podemos usá-la para ajudar a diminuir as diferenças, dentro dos recursos disponíveis. Portanto, convém refletirmos sobre alguns aspetos e fundamentarmos a nossa crítica.
É natural que tenham ocorrido falhas, até pelas adaptações que tiveram de ser feitas, mas acredito que o mais importante foi assegurado. Como mencionei antes, estive presente três vezes e em horários distintos [fui duas vezes durante a semana, uma perto da hora de abertura e outra ao final do dia, e uma ao fim de semana, também perto da hora de abertura] e estive sempre à vontade. Os deslizes que verifiquei, vieram por parte de alguns visitantes, que não conseguiam manter a distância de segurança, nem perceber que não eram os únicos a querer ver determinado stand. Tirando estes apontamentos, foi tudo pacífico.
A edição de 2020, confesso, surpreendeu-me pela positiva. E só posso estar grata por terem avançado com a sua concretização - não só por ser o evento que é, mas também por me permitir regressar a um dos meus lugares favoritos na cidade, conquistando-me em cada reencontro.
PLANO E COMPRAS
Contrariamente aos anos anteriores, fui sem uma lista pensada. Além do mais, não tinha qualquer plano, até porque só podia consultar os livros do dia horas antes da abertura. Apesar disso, e tendo em conta que estive a poupar nos últimos quatro meses, adquiri novos habitantes para a minha estante. E contribui para uma área que me diz imenso, portanto, não podia estar mais satisfeita com este método tão livre.
Uma vez que também lancei a PORTUGALID[ARTE], aproveitei para investir em mais autores nacionais [já tinha poucos por ler]. Mas não só foram os únicos. E, no total, a minha desgraça atingiu os 15 exemplares.
1. Jalan, Jalan, Afonso Cruz;
2. Racismo no País de Brancos Costumes, Joana Gorjão Henriques;
3. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa;
4. Luanda, Lisboa, Paraíso, Djaimilia Pereira de Almeida;
5. A Terceira Índia, Iris Bravo.
6. O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe;
7. A Sibila, Agustina Bessa-Luís;
8. Pessoas Normais, Sally Rooney,
9. 1984, George Orwell;
10. A Lagartinha Muito Comilona, Eric Carle;
11. O Comboio das Nove, Filipe Bacelo;
12. Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, Afonso Cruz.
13. Budapeste, Chico Buarque;
14. Lago, Filipe Santos;
15. A Árvore que não Fazia Sombra, Gonçalo Câmara.
Despedi-me da Feira do Livro do Porto com a carteira mais leve e com o coração a transbordar. Porque, para mim, vale sempre a pena marcar presença. É que os livros agregam-nos, combatem a solidão e são o barulho ou o silêncio que precisamos de escutar. Até para o ano ♥







