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Abr11

Maria do Rosário Pedreira

Trabalhei nove anos na Gradiva com o editor Guilherme Valente, um senhor algo distraído que um dia trouxe, de uma reunião na APEL, um sobretudo que não era o seu e, quando entrou no elevador de sua casa e se viu ao espelho, concluiu apenas que já não gostava de se ver com ele como antes... Enfim, Guilherme Valente começou a sua carreira na Europa-América. Estava eu na Gradiva ainda há relativamente pouco tempo, mandou-me em sua representação a um importante almoço no Hotel Ritz com editores e agentes estrangeiros, incluindo estrelas como Antoine Gallimard. Fiquei sentada em frente de Francisco Lyon de Castro (nesse tempo o editor da Europa- América). Quando me estava a sentar, achando-me provavelmente demasiado nova para merecer um lugar entre os craques da edição, perguntou quem eu era. Quando lhe expliquei que estava ali «em representação do Guilherme Valente» e que trabalhava na Gradiva, retorquiu apenas: «Ah, sim? O seu patrão foi meu empregado.» Enfim, gente educadíssima… Por seu turno, Eduardo Lourenço, quando, no acto inaugural das Correntes d’Escritas, foi chamado para a mesa do presidente da Câmara em representação dos escritores, disse aos presentes: «Pois se eu às vezes já nem me represento bem a mim próprio, como é que posso representar os escritores todos?»