Foto: Reprodução/ Gabriela Motta

Com todas as facilidades que os nossos tempos já dedicaram ao mundo pet, incluindo creches, joias, terapias, playground, hotéis e tanto mais, não sei se já existe o aluguel de pet

Sibélia Zanon*

No estacionamento do sacolão não há quem passe com indiferença pelo carro preto de janelas abertas.

– Oi lindo!

– Que belezinha!

As exclamações variam, mas o tom é o mesmo.

– Aaahhh!

Lá dentro, o cachorro sentado no assento do carona captura a atenção. O homem sentado no assento do motorista, nem tanto. Ainda assim, sobram trocas de olhares cúmplices entre os passantes e o motorista: somos boas pessoas, amamos os pets.

Afinal, um homem com um filhote de golden no assento ao lado só pode conter ternura no coração. Quem duvida?

Caminhando por uma rua movimentada num sábado, o fenômeno se repete. Pessoas cruzam olhares com suas coleiras e comentários amistosos brotam feito erva daninha em rachadura de calçada.

A amizade se faz permeada por vocábulos que transitam por hábitos e pelos e personalidades e formas de expressar afeto, parecendo prosa íntima.

Num cabeleireiro, vejo entrar uma cadela de pelo ruivo em tonalidade igual ao cabelo de sua dona. Não sei qual das duas tingiu para ficar parecida com a outra. Imagine o sucesso da dupla naqueles tons de tintura entre o 7 e o 8?

Tenho observado que esse fenômeno de atração instantânea não tem relação com a localização geográfica porque já notei o mesmo numa diversidade de bairros. É fato, cachorro atrai.

A metodologia é das mais eficientes para captar olhares em tempos de isolamento pandêmico, repleto de telas, carências e invisibilidade. É pelo e queda.

Tido como a estrela santa cecilier, Milu é assunto em todo bairro. Foto: Reprodução/ Gabriela Motta

O método inclui uma caminhada – em velocidade passeio para dar tempo de congratular – e um jeito casual e relaxado de conduzir a coleira.

A raça do cachorro também importa. Além do golden, o bernese atrai olhares sensíveis. Por parecer um urso imenso de pelúcia, ele desperta memórias afetivas bem primárias. Mas, se o dia de verão for muito intenso, ele pode causar uma certa repulsa por causa da pelagem suíça. Ninguém aguenta o cheiro de um cobertor suíço suado aos 35 graus de uma tarde de março.

Vale lembrar que filhotes reconhecidamente caros podem atrair o tipo de parceria inadequada, mais interessada nas finanças do proprietário do que nos afetos.

Atenção para as raças que babam muito, como o cane corso. Podem causar algum constrangimento ao deixar rastros de saliva, proibidos em tempos de Covid.

Na verdade, nada se iguala a circular com um simpático vira-lata. O perfil cai muito bem, passa aquela desejável imagem de pessoa comprometida com os excluídos.

Com todas as facilidades que os nossos tempos já dedicaram ao mundo pet, incluindo creches, joias, terapias, playground, hotéis e tanto mais, não sei se já existe o aluguel de pet. Certeza que seria mais efetivo do que os aplicativos de encontro.

Seria útil ainda para fazer uma experiência atropológica: a cada final de semana seria possível alugar um cachorro diferente e ver como os andantes da calçada reagem a cada perfil. Com a proliferação de goldens, bem possível que eles fiquem no topo dos matches.

No meu caso, simpatizo com a maioria dos cachorros, mas me falta o desejo por pet. Curto bicho selvagem. Explico: é melhor um teiú tranquilo atravessando o gramado do que um teiú desesperado em alta velocidade porque atrás dele corre um cachorro doméstico querendo abocanhar seu rabo. O mundo já anda bem violento e eu não curto as coleiras.

Mas, melhor ficar com a dica anterior. Passear com um teiú por aí seria excesso de irreverência, além de ilegal.

Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.