ilustração de Ligia Zilbersztejn
Minha menina peluda, seu nome? Batizei de Hannah Arendt. Afinal, ela aprendeu muito cedo que a “banalidade do mal faz parte da condição humana”
Maria Paula Curto
Cachorrinho – e gatinho também – não deveria ficar doente nunca. Não é justo. Se existe uma “justiça divina”, que horror um cachorro pode ter feito nessa vida para ter um fibrossarcoma muito agressivo na mandíbula, assim, do nada? E ter que fazer uma espécie de radioterapia, com congelamento de células cancerígenas a cada semana? O quê? Um xixi fora do lugar? Destruir um par de chinelos? Ok, você pode alegar que tem cachorro violento, que morde inclusive o dono. Só sei dizer que já vi Pit Bull salvando criança que caiu na piscina e doberman lambendo a mão de quem o resgatou de um abandono cruel. E nunca vi rottweiler abandonar cria ou amigos porque precisava viajar nas férias…
Minha menina peluda foi encontrada na rua em 31 de dezembro de 2016. Imunda, assustada, cheia de feridas. Não parecia fuga, até porque ninguém veio procurar por ela. Nem um anúncio sequer. Tadinha. Seu nome? Batizei de Hannah Arendt. Afinal, ela aprendeu muito cedo que a “banalidade do mal faz parte da condição humana”…
Rosnava para qualquer um que chegasse perto. Tentava se proteger de um novo abandono. Demorou para ganhar confiança e mostrar afeto novamente. Hoje, é minha sombra, acompanhando cada movimento meu pela casa. Percebeu que esses seres ditos racionais, que andam nas “patas traseiras”, às vezes, também são capazes de amar. E muito.
Nem entendo como consigo gostar tanto desses seres peludos. De domingo a domingo, a gente tem que levar na rua para passear e fazer as necessidades básicas. E essa tarefa, que já era difícil em dias frios ou chuvosos, complicou bastante na pandemia. É máscara, álcool em gel e roupas na quarentena. No início, então, quando se achava que o vírus poderia pular de uma blusa de moletom e entrar nas nossas narinas como um gladiador espinhento, eu parecia um Neil Armstrong tupiniquim sem qualquer pretensão de realizar um salto para a humanidade, mas desviando de vassouras e rodos e rezando para não escorregar no piso da área e dar de cara nos baldes com a água sanitária salvadora. Essa sim, a grande heroína à época.
Fora a quantidade de pelo pela casa, pela roupa, naquele sofá novo que a arquiteta garantiu que era o mais apropriado para pets e que, sim, foi super apropriado, tanto assim, que virou o reduto de todos e hoje a gente pede licença para eventualmente sentar e assistir a uma CPI animada, sem incomodar o descanso dos “operários” caninos e felinos da casa.
Ou quando, na melhor parte do filme, em pleno sábado à noite, a pipoca quentinha no colo, eles cismam que precisam comer. E ai de nós se não atendemos ao pedido deles. Sem chance de ouvir o filme. E chance menor ainda de resistir àquele olhar de “eu sou tão maravilhoso e você vai me deixar aqui, passando fome?”, que eles fazem sem qualquer escrúpulo. Ok, lá vou eu deixar tudo em pausa, sem saber o assassino, e fazer o prato para os verdadeiros reis da casa. Ah, sempre tive a sensação de que os donos da casa, na verdade, são eles, e que eles apenas permitem que eu more aqui porque eu sou quem paga as contas…
Bichos peludos são a prova viva, em carne, osso, pelos e lambidas, de que amor não é porque, mas apesar. Afinal, a gente não ama porque eles são fofinhos. A gente ama, apesar dos latidos, dos rosnados, do cocô e do xixi e das babas pela casa. Simples assim.
Hoje, Hannah me parece bem. O tratamento está surtindo efeito. O combinado com o veterinário é levá-la toda semana para o tal congelamento e acompanhar o resultado. Avisá-lo imediatamente, caso ela pare de comer. Esse é o sinal. A fome. Enquanto ela bater um prato de carne ou de ração, a esperança continua. Enquanto houver fome, há possibilidade de vida. Se ela recusar o quitute mais apetitoso, a suculenta fatia de peito de peru, é porque ela desistiu. E eu vou ter que tomar a terrível decisão que assombra todos os donos de pets: mandar sacrificar minha fiel amiga. Fico pensando se isso também não deveria valer para os humanos. Abreviar o sofrimento de dias, às vezes meses, em UTIs, ligados a milhares de fios, sabendo que retardar o fim é apenas prolongar a dor. O desejo, a fome, já se foi faz tempo. E a vida, tal qual dito pelo protagonista do filme “Mar adentro”, não deveria ser uma obrigação, mas um desejo. Só torço para que a minha Hannah continue com muita, muita fome…
